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DCC639 · Álgebra Linear Computacional · 2026/2

Matrizesortogonais

Uma palavra só — ortogonal — aplicada a quatro objetos: vetores, bases, espaços e matrizes. A aula sobe essa escada até a matriz \(Q\), cuja inversa é a própria transposta, e fecha no caso retangular alta-fina.

Aula: A5 Tópicos: 13 + 2 exercícios P1 · aulas 1–13 Atualizado: 19/08/2026
A5 · 01

Ortogonalidade

Definição

O termo ortogonal aparece em muitos lugares de Álgebra Linear. Em geral ele significa perpendicular, e pode ser usado para caracterizar:

  • vetores;
  • bases;
  • espaços;
  • matrizes.

A aula é exatamente essa escada, de baixo para cima — cada degrau se define pelo anterior. Vale ler a tabela como um mapa do resumo:

ObjetoÉ ortogonal quando…Tópico
Dois vetores \(\mathbf{u},\mathbf{v}\)\(\mathbf{u}^T\mathbf{v}=0\)02
Uma base \(B\)cada par \(\mathbf{b}_i^T\mathbf{b}_j=0\)05
Dois espaços \(V_1,V_2\)todo vetor de um é ortogonal a todo vetor do outro07
Uma matriz \(Q\)é quadrada e tem colunas mutuamente ortonormais08
A5 · 02

Vetores ortogonais

Definição

Dois vetores \(\mathbf{u}\) e \(\mathbf{v}\) são ortogonais quando o produto interno entre eles é zero:

$$\mathbf{u}^T\mathbf{v}=u_1v_1+u_2v_2+\dots+u_nv_n=0$$
u v u − v 90°
Com θ = 90°, o triângulo formado por u, v e u − v é retângulo — é daí que a conta abaixo sai.
Derivação · slide

Se \(\theta=90^\circ\), então vale Pitágoras no triângulo do desenho:

$$\|\mathbf{u}\|^2+\|\mathbf{v}\|^2=\|\mathbf{u}-\mathbf{v}\|^2$$ $$(u_1^2+u_2^2)+(v_1^2+v_2^2)=(u_1-v_1)^2+(u_2-v_2)^2$$ $$u_1^2+u_2^2+v_1^2+v_2^2=(u_1^2-2u_1v_1+v_1^2)+(u_2^2-2u_2v_2+v_2^2)$$ $$0=-2u_1v_1-2u_2v_2$$ $$u_1v_1+u_2v_2=0 \;\longrightarrow\; \mathbf{u}^T\mathbf{v}=0$$

Cancelando os quadrados dos dois lados sobra só o termo cruzado — e ele ser zero é o produto interno ser zero.

A5 · 03

A definição geométrica do produto interno

Outra forma de verificar a ortogonalidade é pela definição geométrica, que troca as coordenadas pelo ângulo:

Definição $$\mathbf{u}^T\mathbf{v}=u_1v_1+u_2v_2+\dots+u_nv_n$$ $$\mathbf{u}^T\mathbf{v}=\|\mathbf{u}\|\,\|\mathbf{v}\|\cos\theta$$
Exemplo · slide

Se \(\theta=90^\circ\), então:

$$\mathbf{u}^T\mathbf{v}=\|\mathbf{u}\|\,\|\mathbf{v}\|\cos(90^\circ)$$ $$\mathbf{u}^T\mathbf{v}=\|\mathbf{u}\|\,\|\mathbf{v}\|\cdot 0$$ $$\mathbf{u}^T\mathbf{v}=0$$

As duas leituras dão no mesmo: a algébrica cancela os quadrados, a geométrica zera o cosseno.

A5 · 04

Bases

Definição

Uma base para um espaço vetorial \(V\) é um conjunto de vetores

$$B=\{\mathbf{b}_1,\mathbf{b}_2,\dots,\mathbf{b}_n\}$$

linearmente independentes que geram o espaço \(V\).

u v
A base B = {u, v} do slide: dois vetores L.I. que geram o ℝ², sem nenhum ângulo especial entre eles.
Exemplo · slide

A base \(B=\{\mathbf{u},\mathbf{v}\}\) do desenho é uma base para o \(\mathbb{R}^2\). Mas existem vários outros conjuntos que também são bases para o \(\mathbb{R}^2\).

Algum deles é melhor?

É essa a pergunta que abre os dois tópicos seguintes: sim, as bases ortogonais são melhores — e as ortonormais, melhores ainda. O critério é o custo de decompor um vetor na base.

A5 · 05

Bases ortogonais

Definição

Bases ortogonais são bases formadas por um conjunto de vetores \(B\) onde cada par de vetores \(\mathbf{b}_i\) e \(\mathbf{b}_j\) é ortogonal, ou seja:

$$\mathbf{b}_i^T\mathbf{b}_j=0$$
u v x
u = [0, 3]ᵀ e v = [2, 0]ᵀ, a base ortogonal do slide. As tracejadas são a decomposição de x nessa base.
Por que elas simplificam

Bases ortogonais simplificam a decomposição do vetor \(\mathbf{x}\) — por exemplo, no \(\mathbb{R}^2\):

$$x_1=\frac{\mathbf{x}\cdot\mathbf{u}}{\|\mathbf{u}\|^2}\qquad\text{projeção de }\mathbf{x}\text{ em }\mathbf{u}$$ $$x_2=\frac{\mathbf{x}\cdot\mathbf{v}}{\|\mathbf{v}\|^2}\qquad\text{projeção de }\mathbf{x}\text{ em }\mathbf{v}$$

O ganho está no rodapé do slide: não precisamos resolver sistemas lineares. Numa base qualquer, achar os pesos de \(\mathbf{x}=x_1\mathbf{u}+x_2\mathbf{v}\) exige montar e resolver um sistema; numa base ortogonal, cada peso sai sozinho, com um produto interno e uma divisão.

Exemplo · slide

Com a base do desenho, \(\mathbf{u}=[0,3]^T\) e \(\mathbf{v}=[2,0]^T\), e o vetor \(\mathbf{x}=[2,3]^T\) apontado por ele. Primeiro confira que a base é mesmo ortogonal:

$$\mathbf{u}^T\mathbf{v}=0\cdot 2+3\cdot 0=0$$

Agora cada peso, um produto interno de cada vez:

$$x_1=\frac{\mathbf{x}\cdot\mathbf{u}}{\|\mathbf{u}\|^2}=\frac{2\cdot 0+3\cdot 3}{0^2+3^2}=\frac{9}{9}=1$$ $$x_2=\frac{\mathbf{x}\cdot\mathbf{v}}{\|\mathbf{v}\|^2}=\frac{2\cdot 2+3\cdot 0}{2^2+0^2}=\frac{4}{4}=1$$

Conferindo a decomposição:

$$x_1\mathbf{u}+x_2\mathbf{v}=1\begin{bmatrix}0\\3\end{bmatrix}+1\begin{bmatrix}2\\0\end{bmatrix}=\begin{bmatrix}2\\3\end{bmatrix}=\mathbf{x}$$
O que a fórmula devolve\(x_1\) é o peso da combinação, um número — não o vetor. O vetor projeção é \(x_1\mathbf{u}\), que aqui deu \([0,3]^T\). Trocar um pelo outro é o erro clássico: some a dimensão da resposta.
A5 · 06

Bases ortonormais

Definição

Bases ortonormais são bases ortogonais \(B\) de vetores unitários. Ou seja, além de \(\mathbf{b}_i^T\mathbf{b}_j=0\) para cada par, vale para cada vetor \(\mathbf{b}_i\in B\):

$$\mathbf{b}_i^T\mathbf{b}_i=1$$
e1 e2 x
e₁ = [0, 1]ᵀ e e₂ = [1, 0]ᵀ, a base ortonormal do slide — os mesmos eixos de antes, agora com comprimento 1.
Por que elas simplificam ainda mais

Bases ortonormais simplificam ainda mais a decomposição do vetor \(\mathbf{x}\), por exemplo no \(\mathbb{R}^2\):

$$x_1=\mathbf{x}\cdot\mathbf{e}_1\qquad x_2=\mathbf{x}\cdot\mathbf{e}_2$$

O rodapé do slide diz o motivo: não precisamos dividir pela magnitude dos vetores da base. Como \(\|\mathbf{e}_i\|^2=1\), o denominador da fórmula anterior some.

Exemplo · slide

Com \(\mathbf{e}_1=[0,1]^T\), \(\mathbf{e}_2=[1,0]^T\) e o mesmo \(\mathbf{x}=[2,3]^T\):

$$x_1=\mathbf{x}\cdot\mathbf{e}_1=2\cdot 0+3\cdot 1=3$$ $$x_2=\mathbf{x}\cdot\mathbf{e}_2=2\cdot 1+3\cdot 0=2$$ $$x_1\mathbf{e}_1+x_2\mathbf{e}_2=3\begin{bmatrix}0\\1\end{bmatrix}+2\begin{bmatrix}1\\0\end{bmatrix}=\begin{bmatrix}2\\3\end{bmatrix}=\mathbf{x}$$

Nenhuma divisão, nenhum sistema: os pesos são os produtos internos.

Atenção à ordem do slideAqui \(\mathbf{e}_1\) é o vetor vertical \([0,1]^T\) e \(\mathbf{e}_2\) é o horizontal \([1,0]^T\) — trocados em relação ao costume da A1. Por isso \(x_1=3\) e \(x_2=2\): o peso tem o índice do vetor da base, não o da coordenada. Numa base ortonormal qualquer, o peso não é a coordenada.
A5 · 07

Espaços ortogonais

Definição

Dois espaços \(V_1\) e \(V_2\) são ortogonais quando todo vetor \(v_i\in V_1\) é ortogonal a todo vetor \(v_j\in V_2\).

O exemplo é a matriz da A4, e as duas relações são as mesmas de lá:

$$A=\begin{bmatrix}1&2\\3&6\end{bmatrix}$$
  • o espaço linha \(C(A^T)\) e o espaço nulo \(N(A)\) são ortogonais;
  • o espaço coluna \(C(A)\) e o espaço nulo esquerdo \(N(A^T)\) são ortogonais.
[1,2] [2,−1]
Entrada ℝ²: espaço linha C(Aᵀ) ⟂ espaço nulo N(A).
[1,3] [3,−1]
Saída ℝ²: espaço coluna C(A) ⟂ espaço nulo esquerdo N(Aᵀ).
Exemplo · slide

Cada par se cruza em ângulo reto na origem, e o produto interno dos geradores confirma:

$$\begin{bmatrix}1\\2\end{bmatrix}\cdot\begin{bmatrix}2\\-1\end{bmatrix}=1\cdot 2+2\cdot(-1)=0$$ $$\begin{bmatrix}1\\3\end{bmatrix}\cdot\begin{bmatrix}3\\-1\end{bmatrix}=1\cdot 3+3\cdot(-1)=0$$

Como os quatro subespaços desta matriz são retas, basta testar um gerador de cada — o produto interno distribui sobre a combinação linear, então zerar com a base zera com o espaço inteiro.

A5 · 08

Matrizes ortogonais

Definição

Uma matriz \(Q\) é ortogonal se ela for uma matriz quadrada de ordem \(n\) com colunas mutuamente ortonormais. Nesse caso:

$$Q^TQ=I$$ $$QQ^T=I$$

Ou seja, a inversa de \(Q\) é a sua transposta:

$$Q^TQ=QQ^T=I$$ $$\boxed{\,Q^{-1}=Q^T\,}$$

Essa é a linha destacada do slide, e é o motivo de a matriz ortogonal ser tão usada em computação: inverter uma matriz é caro, transpor é de graça.

O nome enganaMatriz “ortogonal” exige colunas ortonormais, não só ortogonais — cada coluna também precisa ter norma 1. A matriz \(\begin{bmatrix}0&2\\3&0\end{bmatrix}\) tem colunas ortogonais e não é ortogonal: \(Q^TQ=\begin{bmatrix}9&0\\0&4\end{bmatrix}\ne I\). Só a normalização faz aparecer o 1 na diagonal.
A5 · 09

Identidade, rotação e reflexão

Exemplos de matrizes ortogonais:

Exemplo · matriz identidade $$I_n=\begin{bmatrix}1&0&0&\dots&0\\0&1&0&\dots&0\\0&0&1&\dots&0\\ \vdots&\vdots&\vdots&\ddots&\vdots\\ 0&0&0&\dots&1\end{bmatrix}_{n\times n}$$

As colunas são a base canônica: unitárias e ortogonais duas a duas.

Exemplo · matriz de rotação $$R_\theta=\begin{bmatrix}\cos\theta & -\operatorname{sen}\theta\\ \operatorname{sen}\theta & \cos\theta\end{bmatrix}$$

Conferindo as colunas: cada uma tem norma \(\cos^2\theta+\operatorname{sen}^2\theta=1\), e o produto interno entre elas é

$$\cos\theta\cdot(-\operatorname{sen}\theta)+\operatorname{sen}\theta\cdot\cos\theta=0$$
v v′ θ
Rotação: v′ = R_θ v gira v de θ e não muda o comprimento dele.
Exemplo · matriz de reflexão

Reflexão em torno do eixo \(x\):

$$R_x=\begin{bmatrix}1&0\\0&-1\end{bmatrix}$$

As colunas são \([1,0]^T\) e \([0,-1]^T\) — unitárias e ortogonais. Trocar o sinal de uma coluna não estraga nenhuma das duas condições.

v v′
Reflexão: v′ = R_x v espelha v no eixo x, também sem mudar o comprimento.
A5 · 10

As duas propriedades de \(Q\)

As seguintes propriedades são válidas para uma matriz ortogonal \(Q\). As duas saem do mesmo lugar: no meio da conta aparece \(Q^TQ\), que é \(I\) e some.

1 · preserva a magnitude

Se \(Q\) for multiplicada por qualquer vetor \(\mathbf{x}\), a magnitude de \(\mathbf{x}\) não é alterada:

$$\|Q\mathbf{x}\|=\|\mathbf{x}\|,\qquad\text{pois}\qquad (Q\mathbf{x})^T(Q\mathbf{x})=\mathbf{x}^T\underbrace{Q^TQ}_{=\,I}\mathbf{x}=\mathbf{x}^T\mathbf{x}$$
2 · preserva o ângulo

Se \(Q\) for multiplicada por quaisquer dois vetores \(\mathbf{u}\) e \(\mathbf{v}\), o ângulo entre eles é preservado:

$$(Q\mathbf{u})\cdot(Q\mathbf{v})=\mathbf{u}\cdot\mathbf{v},\qquad\text{pois}\qquad (Q\mathbf{u})^T(Q\mathbf{v})=\mathbf{u}^T\underbrace{Q^TQ}_{=\,I}\mathbf{v}=\mathbf{u}^T\mathbf{v}$$

É o que os dois desenhos anteriores mostram: girar ou espelhar o plano inteiro não altera comprimento nem ângulo — só a posição.

A5 · 11

Matrizes altas-finas

Definição

Uma matriz \(Q\) é dita alta-fina (tall-thin) se ela for uma matriz retangular \(m\times n\) onde o número de linhas \(m\) é consideravelmente maior do que o número de colunas \(n\):

$$A=\begin{bmatrix} a_{11}&a_{12}&\dots&a_{1n}\\ a_{21}&a_{22}&\dots&a_{2n}\\ \vdots&\vdots&\ddots&\vdots\\ a_{m1}&a_{m2}&\dots&a_{mn}\end{bmatrix}$$
Exemplo · slide

O conjunto de dados MNIST pode ser representado por uma matriz alta-fina:

$$\text{MNIST}\;\to\;70000\times 784$$

O MNIST possui 70 mil imagens de \(28\times 28\) pixels. Duas leituras, que é o que a prova pede:

  • cada imagem \(28\times 28\) é achatada em um vetor, concatenando os pixels;
  • cada linha de \(A\) é uma imagem representada por esse vetor.

Daí a forma: 70 000 linhas (uma por imagem) e 784 colunas (uma por pixel) — alta e fina.

Confira a conta\(28\times 28=784\), que é o número de colunas. O texto do slide fala em “vetor de 768 dimensões” ao descrever o achatamento — é lapso de digitação: a dimensão do vetor achatado é a mesma 784 do cabeçalho.
A5 · 12

Alta-fina com colunas ortonormais

Definição

Uma matriz alta-fina \(Q\) é ortonormal se suas colunas \(\mathbf{q}_i\) forem mutuamente ortonormais. Nesse caso:

$$Q^TQ=I$$ $$Q^TQ=\begin{bmatrix}-&\mathbf{q}_1^T&-\\ -&\mathbf{q}_2^T&-\\ -&\mathbf{q}_3^T&-\end{bmatrix}\begin{bmatrix}\mathbf{q}_1&\mathbf{q}_2&\mathbf{q}_3\end{bmatrix}=\begin{bmatrix}1&0&0\\0&1&0\\0&0&1\end{bmatrix}=I$$

Cada entrada do produto é um \(\mathbf{q}_i^T\mathbf{q}_j\): na diagonal \(\mathbf{q}_i^T\mathbf{q}_i=1\) pela normalização, fora dela \(\mathbf{q}_i^T\mathbf{q}_j=0\) pela ortogonalidade.

Mas \(QQ^T\ne I\)

Note que, se \(m>n\), as \(m\) linhas não podem ser mutuamente ortogonais no \(\mathbb{R}^n\), pois o número máximo de vetores não nulos mutuamente ortogonais em \(\mathbb{R}^n\) é \(n\).

$$QQ^T\ne I$$

É a assimetria da matriz alta-fina: as \(n\) colunas cabem confortavelmente no \(\mathbb{R}^m\) e podem ser ortonormais; as \(m\) linhas vivem no \(\mathbb{R}^n\), que é apertado demais para todas elas.

Não escreva \(Q^{-1}=Q^T\) aquiA igualdade do tópico 08 vale só para a quadrada. Numa alta-fina, \(Q^T\) é inversa apenas pela esquerda: \(Q^TQ=I\) mas \(QQ^T\ne I\) — e matriz retangular não tem inversa nenhuma. Confundir os dois casos é o erro clássico da aula.
A5 · 13

A propriedade que sobrevive no caso alta-fina

Propriedade

A seguinte propriedade é válida para uma matriz alta-fina ortonormal \(Q\): se \(Q\) for multiplicada por um vetor \(\mathbf{x}\), a magnitude de \(\mathbf{x}\) não é alterada.

$$\|Q\mathbf{x}\|=\|\mathbf{x}\|,\qquad\text{pois}\qquad (Q\mathbf{x})^T(Q\mathbf{x})=\mathbf{x}^T\underbrace{Q^TQ}_{=\,I}\mathbf{x}=\mathbf{x}^T\mathbf{x}$$

A conta é a mesma do tópico 10 e continua valendo porque só usa \(Q^TQ=I\), que a alta-fina tem. O vetor \(\mathbf{x}\) entra do \(\mathbb{R}^n\) e o resultado \(Q\mathbf{x}\) sai no \(\mathbb{R}^m\), num espaço bem maior — e ainda assim com o mesmo comprimento.

A5 · Exercício 1

Ortogonalidade de \(\mathbf{u}+\mathbf{v}\) e \(\mathbf{u}-\mathbf{v}\)

Enunciado · slide

Se os vetores \(\mathbf{u}\) e \(\mathbf{v}\) são ortogonais e unitários, mostre que \(\mathbf{u}+\mathbf{v}\) é ortogonal a \(\mathbf{u}-\mathbf{v}\). Qual é a magnitude de \(\mathbf{u}+\mathbf{v}\) e de \(\mathbf{u}-\mathbf{v}\)?

Resolução

As hipóteses, escritas como produto interno — é só isso que vai ser usado:

$$\mathbf{u}^T\mathbf{v}=0\quad(\text{ortogonais}),\qquad \mathbf{u}^T\mathbf{u}=\mathbf{v}^T\mathbf{v}=1\quad(\text{unitários})$$

Parte 1 — a ortogonalidade. Abrindo o produto interno pela distributividade:

$$(\mathbf{u}+\mathbf{v})^T(\mathbf{u}-\mathbf{v})=\mathbf{u}^T\mathbf{u}-\mathbf{u}^T\mathbf{v}+\mathbf{v}^T\mathbf{u}-\mathbf{v}^T\mathbf{v}$$ $$=1-0+0-1=0$$

Produto interno zero é ortogonalidade. Note que os dois termos cruzados se cancelariam mesmo sem a hipótese de ortogonalidade, já que \(\mathbf{u}^T\mathbf{v}=\mathbf{v}^T\mathbf{u}\); o que faz o resultado ser zero é os dois vetores terem o mesmo comprimento.

Parte 2 — as magnitudes. Mesma abertura, agora com o vetor consigo mesmo:

$$\|\mathbf{u}+\mathbf{v}\|^2=(\mathbf{u}+\mathbf{v})^T(\mathbf{u}+\mathbf{v})=\mathbf{u}^T\mathbf{u}+2\,\mathbf{u}^T\mathbf{v}+\mathbf{v}^T\mathbf{v}=1+0+1=2$$ $$\|\mathbf{u}-\mathbf{v}\|^2=\mathbf{u}^T\mathbf{u}-2\,\mathbf{u}^T\mathbf{v}+\mathbf{v}^T\mathbf{v}=1-0+1=2$$ $$\|\mathbf{u}+\mathbf{v}\|=\|\mathbf{u}-\mathbf{v}\|=\sqrt{2}$$

É o Pitágoras do tópico 02 lido ao contrário: as duas diagonais do quadrado de lado 1 medem \(\sqrt{2}\) e se cruzam em ângulo reto.

A5 · Exercício 2

O que \((Q\mathbf{u})^T(Q\mathbf{v})=\mathbf{u}^T\mathbf{v}\) significa

Enunciado · slide

Seja \(Q\) ortonormal e \(\mathbf{y}=Q\mathbf{x}\): a norma de \(\mathbf{y}\) é igual à norma de \(\mathbf{x}\) (acabamos de ver isso). O que significa, geometricamente, a propriedade \((Q\mathbf{u})^T(Q\mathbf{v})=\mathbf{u}^T\mathbf{v}\) para dois vetores \(\mathbf{u}\) e \(\mathbf{v}\)?

Resolução

Escreva o produto interno na forma geométrica do tópico 03, dos dois lados da igualdade:

$$\|Q\mathbf{u}\|\,\|Q\mathbf{v}\|\cos\theta'=\|\mathbf{u}\|\,\|\mathbf{v}\|\cos\theta$$

Pela primeira propriedade, \(\|Q\mathbf{u}\|=\|\mathbf{u}\|\) e \(\|Q\mathbf{v}\|=\|\mathbf{v}\|\). Cancelando as normas dos dois lados:

$$\cos\theta'=\cos\theta \;\Longrightarrow\; \theta'=\theta$$

Resposta. O ângulo entre os dois vetores é o mesmo antes e depois de multiplicar por \(Q\). Junto com a preservação da norma, isso quer dizer que \(Q\) não deforma nada: ela move o conjunto inteiro rigidamente, como a rotação e a reflexão do tópico 09 — distâncias, comprimentos e ângulos ficam todos iguais.

Caso particular útil: se \(\mathbf{u}\) e \(\mathbf{v}\) eram ortogonais, \(Q\mathbf{u}\) e \(Q\mathbf{v}\) continuam ortogonais. Multiplicar uma base ortonormal por \(Q\) devolve outra base ortonormal.

Revisão

Checklist da A5

Se você consegue responder tudo abaixo sem consultar, a aula está fechada.

PerguntaOnde está
Dizer os quatro objetos que a palavra “ortogonal” caracterizaOrtogonalidade
Testar se dois vetores são ortogonais pelo produto internoVetores ortogonais
Deduzir \(\mathbf{u}^T\mathbf{v}=0\) a partir de PitágorasVetores ortogonais
Usar \(\mathbf{u}^T\mathbf{v}=\|\mathbf{u}\|\|\mathbf{v}\|\cos\theta\) para chegar ao mesmo resultadoA definição geométrica
Dizer o que torna um conjunto uma base, e o que a torna ortogonalBases · Bases ortogonais
Decompor \(\mathbf{x}\) numa base ortogonal sem resolver sistemaBases ortogonais
Dizer o que muda na fórmula quando a base é ortonormalBases ortonormais
Dizer quando dois espaços são ortogonais e citar os dois pares de \(A\)Espaços ortogonais
Enunciar a definição de matriz ortogonal e concluir \(Q^{-1}=Q^T\)Matrizes ortogonais
Verificar que rotação e reflexão têm colunas ortonormaisIdentidade, rotação e reflexão
Mostrar \(\|Q\mathbf{x}\|=\|\mathbf{x}\|\) e \((Q\mathbf{u})\cdot(Q\mathbf{v})=\mathbf{u}\cdot\mathbf{v}\)Propriedades de \(Q\)
Dizer o que é uma matriz alta-fina e dar a forma do MNISTMatrizes altas-finas
Justificar por que \(Q^TQ=I\) mas \(QQ^T\ne I\) quando \(m>n\)Alta-fina ortonormal
Dizer qual propriedade de \(Q\) continua valendo no caso retangularA propriedade que sobrevive
Provar que \(\mathbf{u}+\mathbf{v}\perp\mathbf{u}-\mathbf{v}\) e dar as duas magnitudesExercício 1
Explicar geometricamente a preservação do produto internoExercício 2