← MAT039 · Cálculo II
MAT039 · Cálculo II · 2026/2

Sequênciaslimite, monotonicidade e limitação

Uma sequência é uma função de domínio \(\mathbb{N}\) — e é por isso que quase tudo de Cálculo 1 sobre limites vale aqui. O assunto fecha no Teorema da Sequência Monótona.

Aula: A1 Tópicos: 8 Atualizado: 16/08/2026
A1 · 01

O que é uma sequência

Definição

Uma sequência é uma lista ordenada e infinita de números:

$$a_1,\; a_2,\; a_3,\; \dots,\; a_n,\; \dots \;=\; \{a_n\}_{n\in\mathbb{N}}$$

Formalmente, é uma função cujo domínio é \(\mathbb{N}\). Escrevemos \(a_n = f(n)\): o índice \(n\) é a entrada, o termo \(a_n\) é a saída.

Exemplo (a) · Fibonacci $$1,\;1,\;2,\;3,\;5,\;8,\;\dots$$

Definida por recorrência: cada termo é a soma dos dois anteriores.

Exemplo (b) · uma enumeração de \(\mathbb{Z}\)

\(f:\mathbb{N}\to\mathbb{Z}\) definida por

$$f(n) = \begin{cases} \dfrac{n}{2}, & \text{se } n \text{ é par},\\[6pt] -\dfrac{n+1}{2}, & \text{se } n \text{ é ímpar},\end{cases}$$ $$\Longrightarrow \{0,\,-1,\,1,\,-2,\,2,\,\dots\}$$

Os índices pares produzem os inteiros positivos e os ímpares produzem os negativos, alternando. Toda a reta dos inteiros é varrida sem repetição — é a demonstração de que \(\mathbb{Z}\) é enumerável, isto é, tem o "mesmo tamanho" de \(\mathbb{N}\).

Exemplo (c) · a alternada $$\{(-1)^n\}_{n\in\mathbb{N}} = \{-1,\,1,\,-1,\,1,\,\dots\}$$

Fica pulando entre dois valores para sempre: não converge. Vale guardar este contraexemplo — ele reaparece três vezes nesta aula.

A1 · 02

Limite de uma sequência

Definição

A sequência \(\{a_n\}\) possui limite \(L\) se

$$\lim_{n\to+\infty} a_n = L \quad\text{e}\quad L \neq \pm\infty.$$

Nesse caso a sequência é convergente. Caso contrário, divergente.

O desenho da aula, em símbolos

Desenha-se uma faixa horizontal em torno de \(L\), de \(L-\varepsilon\) até \(L+\varepsilon\). Dizer que \(a_n \to L\) significa: por menor que seja \(\varepsilon>0\), existe um índice a partir do qual todos os termos seguintes caem dentro da faixa — e nunca mais saem.

$$\forall\,\varepsilon>0,\; \exists\,N\in\mathbb{N} \;\text{ tal que }\; n>N \implies |a_n - L| < \varepsilon.$$

Os primeiros termos podem estar longe de \(L\) — isso não atrapalha. O que importa é o comportamento no "fim" da sequência.

Exemplo em aula $$\left\{\frac{n}{n+1}\right\} = \left\{\tfrac{1}{2},\,\tfrac{2}{3},\,\tfrac{3}{4},\,\tfrac{4}{5},\,\dots\right\}$$

O truque padrão é trocar o \(n\) discreto pela variável real \(x\). Com \(F(x)=\frac{x}{x+1}\) temos a indeterminação \(\infty/\infty\), então L'Hôpital:

$$\lim_{x\to+\infty}\frac{x}{x+1} \;\overset{\text{L'H}}{=}\; \lim_{x\to+\infty}\frac{1}{1} = 1.$$

Logo a sequência converge para 1: os termos sobem, cada vez mais devagar, encostando em 1 sem nunca alcançá-lo. Ela é crescente e limitada por 1.

A1 · 03

Trocar \(n\) por \(x\)

A regra que legitima o truque

Se \(f(x)\to L\) quando \(x\to+\infty\) e \(a_n=f(n)\), então \(a_n\to L\).

A recíproca é falsa: \(f(x)=\operatorname{sen}(\pi x)\) dá \(a_n=0\) para todo \(n\), que converge — mas \(f\) não tem limite.

Cuidado com a anotação da lousaFicou escrito \(\frac{d}{dx}\left(\frac{x}{x+1}\right)=1\), o que não é verdade — a derivada dessa função é \(\frac{1}{(x+1)^2}\). O que estava sendo feito é L'Hôpital: derivar numerador e denominador separadamente (1 e 1). Notação apressada, resultado correto.
A1 · 04

Sequência recursiva: o método do \(\sqrt{2}\)

A recorrência $$a_{n+1} = \frac{1}{2}\left(a_n + \frac{2}{a_n}\right), \qquad a_1 = 2$$

Aqui não há fórmula fechada para \(a_n\) — cada termo depende do anterior.

Calculando os primeiros termos $$a_2 = \frac{1}{2}\left(2+\frac{2}{2}\right) = \frac{1}{2}(3) = \frac{3}{2}$$ $$a_3 = \frac{1}{2}\left(\frac{3}{2}+\frac{4}{3}\right) = \frac{1}{2}\left(\frac{9}{6}+\frac{8}{6}\right) = \frac{1}{2}\left(\frac{17}{6}\right) = \frac{17}{12}$$

Obs. O \(\frac{4}{3}\) é o termo \(\frac{2}{a_n}\) da recorrência com \(a_2=\frac{3}{2}\): dividir por uma fração é multiplicar pelo inverso, \(\frac{2}{3/2} = 2\cdot\frac{2}{3} = \frac{4}{3}\). Depois é só igualar os denominadores em 6 para somar.

termofraçãodecimal
\(a_1\)22,000000
\(a_2\)3/21,500000
\(a_3\)17/121,416667
\(a_4\)577/4081,414216
\(a_5\)—1,414214
\(\sqrt{2}\)—1,414214

A convergência é brutalmente rápida: o número de casas decimais corretas dobra a cada passo.

Como se descobre que o limite é \(\sqrt{2}\)

Supondo que o limite existe e vale \(L\): quando \(n\to\infty\), tanto \(a_n\) quanto \(a_{n+1}\) tendem a \(L\) — é a mesma sequência, só deslocada um passo. Substituindo na recorrência:

$$L = \frac{1}{2}\left(L+\frac{2}{L}\right)$$ $$L^2 = \frac{1}{2}L^2 + 1 \implies \frac{L^2}{2} = 1 \implies L^2 = 2 \implies L = \pm\sqrt{2}$$

Como \(a_1=2>0\) e a recorrência preserva o sinal, todos os termos são positivos — descarta-se a raiz negativa:

$$\boxed{\,L=\sqrt{2}\,}$$
Verificação · o valor é mesmo ponto fixo $$\frac{1}{2}\left(\sqrt{2}+\frac{2}{\sqrt{2}}\right) = \frac{1}{2}\left(\sqrt{2}+\sqrt{2}\right) = \sqrt{2}$$

pois \(\frac{2}{\sqrt{2}}\cdot\frac{\sqrt{2}}{\sqrt{2}} = \frac{2\sqrt{2}}{2} = \sqrt{2}\).

Por que essa conta não é circularA passagem \(L=\frac{1}{2}(L+2/L)\) só vale se o limite existir. Supor que existe para depois calculá-lo seria circular sem uma garantia externa — e é exatamente isso que monotonicidade e limitação vão fornecer no tópico 07. Detalhe bonito: essa recorrência é o método de Newton aplicado a \(g(x)=x^2-2\), já que \(x-\frac{g(x)}{g'(x)} = x-\frac{x^2-2}{2x} = \frac{1}{2}\left(x+\frac{2}{x}\right)\). Os babilônios já usavam isso.
A1 · 05

Propriedades operatórias

Álgebra dos limites

Se \(\lim a_n = L_1\) e \(\lim b_n = L_2\), ambos existindo, então:

1. \(\lim(a_n + c\,b_n) = \lim a_n + c\lim b_n\), para \(c\in\mathbb{R}\)

2. \(\lim(a_n\cdot b_n) = (\lim a_n)(\lim b_n)\)

3. \(\lim\left(\frac{a_n}{b_n}\right) = \frac{\lim a_n}{\lim b_n}\), desde que \(L_2\neq 0\)

A hipótese que some na provaSe algum dos dois limites não existe, nenhuma das três regras pode ser usada. Com \(a_n=(-1)^n\) e \(b_n=(-1)^{n+1}\), o produto \(a_nb_n=-1\) converge, mas nenhum dos fatores converge.
A1 · 06

Teorema do Confronto

Teorema

Se \(\lim a_n = \lim b_n = L\) e vale

$$a_n \le c_n \le b_n$$

para todo \(n\), então \(\lim c_n = L\). A ideia é geométrica: se as duas "cascas" se fecham no mesmo valor, o que está espremido no meio não tem para onde ir.

Exemplo (a) $$-\frac{1}{n} \;\le\; \frac{\operatorname{sen}(n)}{n} \;\le\; \frac{1}{n}$$

Vale porque \(-1\le\operatorname{sen}(n)\le 1\) e \(n>0\). Como os dois extremos tendem a 0, o confronto dá

$$\lim_{n\to+\infty}\frac{\operatorname{sen}(n)}{n} = 0.$$

Note que \(\operatorname{sen}(n)\) sozinho não converge — é o \(1/n\) que domina.

Exemplo (b) $$\left\{\frac{\ln n}{n}\right\} = \left\{0,\;\frac{\ln 2}{2},\;\frac{\ln 3}{3},\;\dots\right\}$$

Passando para a variável real (\(\infty/\infty\)) e aplicando L'Hôpital:

$$\lim_{x\to+\infty}\frac{\ln x}{x} \overset{\text{L'H}}{=} \lim_{x\to+\infty}\frac{1/x}{1} = \lim_{x\to+\infty}\frac{1}{x} = 0.$$

Obs. As derivadas usadas foram \((\ln x)' = \frac{1}{x}\) em cima e \((x)' = 1\) embaixo — separadamente, como manda L'Hôpital. O andar de cima vira \(\frac{1/x}{1} = \frac{1}{x}\), que tende a 0.

Leitura: o logaritmo cresce mais devagar que qualquer potência.

Exemplo (c) $$\left\{n^{1/n}\right\} = \left\{1,\;2^{1/2},\;3^{1/3},\;\dots\right\}$$

Aqui a base e o expoente variam ao mesmo tempo — indeterminação \(\infty^0\). O truque é escrever tudo como exponencial de logaritmo:

$$\lim_{x\to+\infty}x^{1/x} = \lim_{x\to+\infty}e^{\ln\left(x^{1/x}\right)} = \lim_{x\to+\infty}e^{\frac{1}{x}\ln x} = e^0 = 1,$$

usando no expoente o resultado do exemplo (b) e a continuidade da exponencial, que permite passar o limite para dentro do \(e\).

A1 · 07

Monotonicidade e limitação

Crescente e decrescente

\(\{a_n\}\) é decrescente se \(a_n > a_{n+1}\) para cada \(n\in\mathbb{N}\);

e crescente se \(a_n < a_{n+1}\) para cada \(n\in\mathbb{N}\).

Erro de cópia da lousaNas anotações as duas linhas ficaram idênticas (\(a_n > a_{n+1}\) nas duas). A segunda é a de crescente e leva o sinal invertido, \(a_n < a_{n+1}\). Vale corrigir no caderno antes que vire confusão na prova.
Monótona e limitada

\(\{a_n\}\) é monótona se for crescente ou decrescente.

\(\{a_n\}\) é limitada se \(|a_n|\le M\) para todo \(n\in\mathbb{N}\), para algum \(M\) fixo. Equivale a estar presa entre duas retas horizontais — limitada superior e inferiormente ao mesmo tempo.

Teorema da Sequência Monótona

Toda sequência monótona e limitada é convergente.

É isso que fecha o buraco do tópico 04

A sequência do \(\sqrt{2}\) é decrescente a partir de \(a_1\) e limitada inferiormente por \(\sqrt{2}\). Logo o limite existe — e só então faz sentido resolver \(L=\frac{1}{2}\left(L+\frac{2}{L}\right)\).

As duas hipóteses são necessáriasO teorema é não construtivo: garante que o limite existe sem dizer qual é. Em compensação exige as duas hipóteses — monotonicidade sozinha não basta (\(a_n=n\) é crescente e diverge) e limitação sozinha também não (\((-1)^n\) é limitada e diverge).
A1 · 08

Resumo de bolso

SituaçãoFerramenta
Quociente de polinômiosTrocar \(n\) por \(x\) e usar L'Hôpital
Termo oscilante vezes algo que vai a zeroTeorema do Confronto
Base e expoente variandoEscrever como \(e^{\ln(\cdot)}\)
Definida por recorrênciaProvar monótona + limitada, depois resolver \(L=f(L)\)
Só quero saber se convergeMonótona e limitada \(\Rightarrow\) converge
Hierarquia de crescimento $$\ln n \;\ll\; n^p \;\ll\; a^n \;\ll\; n! \;\ll\; n^n \qquad (p>0,\; a>1)$$

Numa razão entre dois desses, quem está mais à direita vence: o limite é 0 se ele estiver no denominador, e \(+\infty\) se estiver no numerador.

Armadilhas frequentes

  • Usar a álgebra dos limites sem verificar que os limites existem. As três regras exigem \(L_1\) e \(L_2\) finitos.
  • Resolver \(L=f(L)\) sem justificar que o limite existe. A equação do ponto fixo só vale depois de garantir a convergência.
  • Confundir "limitada" com "convergente". \((-1)^n\) é limitada e diverge.
  • Achar que os primeiros termos importam. Convergência é propriedade do "fim" — mudar os 100 primeiros termos não altera o limite.
  • Derivar quando o certo é L'Hôpital. Derivam-se numerador e denominador separadamente, não o quociente.
Revisão

Checklist da A1

Se você consegue responder tudo abaixo sem consultar, a aula está fechada.

PerguntaOnde está
Explicar por que uma sequência é uma função de domínio \(\mathbb{N}\)O que é uma sequência
Escrever a definição de limite com \(\varepsilon\) e \(N\)Limite de uma sequência
Calcular \(\lim n/(n+1)\) trocando \(n\) por \(x\)Trocar \(n\) por \(x\)
Dizer por que a recíproca da regra \(f(n)=a_n\) é falsaTrocar \(n\) por \(x\)
Achar o limite de uma recorrência resolvendo \(L=f(L)\)Recursiva: método do √2
Justificar por que essa conta não é circularRecursiva: método do √2
Dar um contraexemplo à álgebra dos limites sem hipótesePropriedades operatórias
Aplicar o confronto a \(\operatorname{sen}(n)/n\)Teorema do Confronto
Resolver uma indeterminação \(\infty^0\)Teorema do Confronto (c)
Enunciar o Teorema da Sequência Monótona e mostrar que as duas hipóteses são necessáriasMonotonicidade e limitação