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MAT039 · Cálculo II · 2026/2

Sériesconvergência e testes

Uma série é o limite das somas parciais de uma sequência. A aula monta a definição e depois entrega o arsenal de testes: divergência, integral, comparação e comparação no limite.

Aula: A2 Tópicos: 16 Pré-requisito: A1 Atualizado: 16/08/2026
A2 · 01

De onde vem: o comprimido

A situação

Um comprimido de 250 mg é tomado a cada 6 h. Após 6 h, resta no corpo 4% da dose anterior. Quanto se acumula no organismo a longo prazo?

Montando termo a termo $$T_0 = 0, \qquad T_1 = 250$$ $$T_2 = 250 + T_1(0{,}04) = 250 + 250(0{,}04)$$ $$T_3 = 250 + T_2(0{,}04) = 250 + 250(0{,}04) + 250(0{,}04)^2$$ $$T_N = 250 + 250(0{,}04) + \dots + 250(0{,}04)^{N-1}$$

É uma progressão geométrica, cuja soma dos \(N\) primeiros termos é

$$S_N = \frac{a_1\left(1-q^N\right)}{1-q} = \frac{250\left(1-(0{,}04)^N\right)}{1-0{,}04}$$

Fazendo \(N\to\infty\), o termo \((0{,}04)^N\) desaparece:

$$T_N \longrightarrow \frac{250}{0{,}96} = \frac{250}{\tfrac{96}{100}} = 250\cdot\frac{100}{96} \approx 260{,}42\ \text{mg}$$
A2 · 02

Somas parciais e definição de série

Da sequência para a série

De uma sequência \(\{a_n\} = \{a_1,a_2,a_3,\dots\}\) constrói-se a sequência das somas parciais \(\{S_n\}\):

$$S_1 = a_1, \qquad S_2 = a_1+a_2, \qquad S_3 = a_1+a_2+a_3, \;\dots$$

E a série é o limite dessa nova sequência:

$$\lim_{N\to\infty} S_N = \lim_{N\to\infty}\sum_{k=1}^{N} a_k = \sum_{n=1}^{\infty} a_n$$
Definição

Seja \(\{a_n\}\) uma sequência. A série \(S=\sum_{n=1}^{\infty}a_n\) é

  • convergente se \(S\in\mathbb{R}\);
  • divergente se \(S\notin\mathbb{R}\).
Série é limite, não somaNão existe "somar infinitos números". O que existe é o limite das somas parciais. Toda pergunta sobre série é, no fundo, uma pergunta sobre a sequência \(\{S_n\}\) — e aí vale tudo da A1.
A2 · 03

A série alternada

Exemplo · \(a_n=(-1)^{n+1}\) $$\sum_{n=1}^{\infty}(-1)^{n+1} = 1 - 1 + 1 - 1 + \dots$$

Olhando as somas parciais:

$$S_1 = 1,\quad S_2 = 1-1 = 0,\quad S_3 = 1,\quad S_4 = 0,\quad S_5 = 1$$

A sequência \(\{S_n\}\) fica pulando entre 0 e 1 — não converge. Logo a série diverge.

É a definição funcionandoRepare que a conclusão veio direto da definição: não foi preciso teste nenhum. Basta exibir \(\{S_n\}\) e mostrar que ela não tem limite.
A2 · 04

Série geométrica

A pergunta $$\sum_{n=1}^{\infty} a_1\,q^{\,n-1}$$

Para quais valores de \(q\) ela converge? A soma parcial é

$$S_N = \frac{a_1\left(1-q^N\right)}{1-q}$$
Caso a caso

Se \(q=1\): a fórmula quebra, mas a série é \(a_1+a_1+a_1+\dots\), que diverge.

Se \(|q|\ge 1\): \(q^N\) não se estabiliza e a série diverge.

Se \(|q|<1\): \(q^N\to 0\) e a série converge, com

$$\boxed{\;S = \frac{a_1}{1-q}\;}$$
A2 · 05

Série que representa uma função

A geométrica lida ao contrário

Tomando \(a_1=1\) e \(q=x\) na fórmula anterior:

$$\sum_{n=1}^{\infty} x^{\,n-1} = \frac{1}{1-x}, \qquad |x|<1$$

Ou seja: uma função inteira fica representada por uma série, dentro do intervalo em que ela converge. O mesmo acontece com \(e^x\), \(\cos(x)\), \(\operatorname{sen}(x)\) e outras.

Para onde isso vaiEssa é a porta de entrada das séries de potências. Aqui basta reter a fórmula e a condição \(|x|<1\) — fora dela a igualdade simplesmente não vale.
A2 · 06

Série telescópica

Definição

Uma série é telescópica quando o termo geral é a diferença de dois termos consecutivos de uma mesma sequência \(\{b_n\}\):

$$a_n = b_n - b_{n+1}$$

O nome vem da luneta que se fecha sobre si mesma: ao somar, cada parcela negativa encontra a positiva da parcela seguinte, e o miolo inteiro desaparece.

$$S_N = \sum_{n=1}^{N}\left(b_n - b_{n+1}\right) = b_1 - b_{N+1}$$

Sobram só as pontas. A série é o limite disso:

$$\sum_{n=1}^{+\infty}\left(b_n - b_{n+1}\right) = b_1 - \lim_{N\to+\infty} b_{N+1}$$
O critério

Toda a convergência fica pendurada num limite só, o de \(b_n\):

  • se \(\lim b_{N+1}\) existe e é finito, a série converge, e a soma é \(b_1\) menos esse limite;
  • se esse limite é infinito ou não existe, a série diverge.
O procedimento, sempre igual
  1. Escrever o termo como uma diferença \(b_n - b_{n+1}\). Às vezes ele já chega assim; às vezes é preciso decompor em frações parciais para chegar nesse formato — é o assunto do tópico 07.
  2. Montar a soma parcial \(S_N\) e cancelar o miolo.
  3. Ver o que sobra nas pontas.
  4. Tomar o limite quando \(N\to+\infty\).
Exemplo · \(\sum \frac{1}{n(n+1)}\) · precisa de frações parciais $$\sum_{n=1}^{\infty}\frac{1}{n(n+1)} = \frac{1}{2}+\frac{1}{6}+\frac{1}{12}+\dots$$ $$= \frac{1}{1\cdot 2}+\frac{1}{2\cdot 3}+\frac{1}{3\cdot 4}+\dots$$

O truque é decompor o termo geral em frações parciais. O denominador já está fatorado em dois fatores lineares, então escrevemos uma incógnita sobre cada um:

$$\frac{1}{n(n+1)} = \frac{A}{n}+\frac{B}{n+1}$$

Multiplicando os dois lados por \(n(n+1)\), os denominadores somem:

$$1 = A(n+1) + Bn$$

Agora escolhemos valores de \(n\) que anulam um dos termos:

$$n=0:\quad 1 = A(1) + 0 \implies A = 1$$ $$n=-1:\quad 1 = 0 + B(-1) \implies B = -1$$

Substituindo de volta:

$$\frac{1}{n(n+1)} = \frac{1}{n}-\frac{1}{n+1}$$

Obs. Escolher \(n=0\) e \(n=-1\) é o atalho: cada raiz do denominador zera um dos termos e entrega a outra incógnita de graça. Dá no mesmo que igualar coeficientes, mas sem resolver sistema.

As somas parciais se cancelam $$S_1 = \frac{1}{1\cdot 2} = 1-\frac{1}{2}$$ $$S_2 = \frac{1}{1\cdot 2}+\frac{1}{2\cdot 3} = 1-\frac{1}{2}+\frac{1}{2}-\frac{1}{3}$$ $$S_n = 1-\frac{1}{2}+\frac{1}{2}-\frac{1}{3}+\frac{1}{3}-\frac{1}{4}+\dots$$

Todo termo interno aparece duas vezes com sinais opostos e some. Sobram apenas as pontas:

$$S_n = 1-\frac{1}{n+1} \qquad\Longrightarrow\qquad S_n \xrightarrow[n\to+\infty]{} 1$$

Logo a série converge e \(\sum_{n=1}^{\infty}\frac{1}{n(n+1)} = 1\).

Exemplo extra · fora do slide · já vem como diferença $$\sum_{n=1}^{+\infty}\left(e^{1/n} - e^{1/(n+1)}\right)$$

Passo 1 · achar o \(b_n\). Não há o que decompor: basta comparar com \(a_n = b_n - b_{n+1}\).

$$b_n = e^{1/n} \qquad\Longrightarrow\qquad b_{n+1} = e^{1/(n+1)}$$

Passo 2 · montar \(S_N\) e cancelar o miolo. Abrindo as primeiras parcelas:

$$n=1:\quad e^{1} - e^{1/2}$$ $$n=2:\quad e^{1/2} - e^{1/3}$$ $$n=3:\quad e^{1/3} - e^{1/4}$$

O salto é 1, então cada negativo morre com o positivo da linha imediatamente seguinte.

Passo 3 · o que sobra nas pontas. Uma de cada lado: o primeiro positivo e o último negativo.

$$S_N = e^{1} - e^{1/(N+1)} = e - e^{1/(N+1)}$$

Passo 4 · o limite. Quando \(N\to+\infty\), o expoente \(\frac{1}{N+1}\to 0\), e a exponencial é contínua:

$$\lim_{N\to+\infty} e^{1/(N+1)} = e^{0} = 1$$

O limite existe e é finito, logo a série converge:

$$\sum_{n=1}^{+\infty}\left(e^{1/n} - e^{1/(n+1)}\right) = e - 1 \approx 1{,}718$$
A ponta é \(b_1\), não \(b_0\)O termo que sobrevive é o \(b\) avaliado no índice em que a série começa. Esta soma dá \(e^1-1\) porque ela começa em \(n=1\); a mesma série começando em \(n=3\) daria \(e^{1/3}-1\). Conferir o índice inicial antes de escrever a resposta.
Telescópica também divergeCancelar o miolo não garante nada — o que decide é o limite da ponta. Em \(\sum_{n=1}^{+\infty}\left(\ln n - \ln(n+1)\right)\) o miolo cancela igual, mas sobra \(S_N = \ln 1 - \ln(N+1) = -\ln(N+1)\), que vai a \(-\infty\): a série diverge.
Por que esta série é especialJunto com a geométrica, é uma das pouquíssimas em que se conhece a soma exata, e não apenas se ela converge. O caminho foi achar \(S_n\) em forma fechada — quando isso é possível, nenhum teste é necessário.
A2 · 07

Frações parciais: decidir e somar

A decomposição do tópico anterior não é um truque daquela série só — é o procedimento padrão para todo termo geral que seja uma fração com denominador fatorável. Ele resolve as duas perguntas de uma vez: se a série converge e quanto ela vale.

O roteiro
  1. Fatorar o denominador em fatores lineares.
  2. Escrever uma incógnita sobre cada fator.
  3. Multiplicar os dois lados pelo denominador inteiro, para limpá-lo.
  4. Substituir as raízes do denominador, uma de cada vez: cada uma zera todos os termos menos um e entrega uma incógnita de graça.
  5. Com o termo já na forma de diferença, seguir o procedimento telescópico do tópico 06: somar até \(N\) e ver o que sobrevive ao cancelamento.

O passo 5 é o que separa este método dos testes: ele devolve \(S_N\) em forma fechada. Com \(S_N\) na mão, a convergência é só o limite dele — e o limite é a soma.

Exemplo extra · fora do slide

A série \(\sum_{n=2}^{+\infty}\frac{1}{n^2-1}\) é a mesma que o Teste da Integral vai resolver no tópico 11 — lá só para dizer que converge. Aqui ela sai inteira, com o valor da soma.

Passo 1 · fatorar. É diferença de quadrados:

$$\frac{1}{n^2-1} = \frac{1}{(n-1)(n+1)}$$

Passos 2 e 3 · uma incógnita por fator, e limpar:

$$\frac{1}{(n-1)(n+1)} = \frac{A}{n-1}+\frac{B}{n+1}$$ $$1 = A(n+1) + B(n-1)$$

Passo 4 · substituir as raízes \(n=1\) e \(n=-1\):

$$n=1:\quad 1 = A(2) + 0 \implies A = \tfrac{1}{2}$$ $$n=-1:\quad 1 = 0 + B(-2) \implies B = -\tfrac{1}{2}$$

Com o \(\tfrac12\) em evidência:

$$\frac{1}{n^2-1} = \frac{1}{2}\left(\frac{1}{n-1}-\frac{1}{n+1}\right)$$
Passo 5 · o cancelamento, com salto de 2

A soma parcial, de \(n=2\) até \(n=N\), é

$$S_N = \frac{1}{2}\sum_{n=2}^{N}\left(\frac{1}{n-1}-\frac{1}{n+1}\right)$$

Abrindo as primeiras parcelas, uma por linha:

$$n=2:\quad \frac{1}{1}-\frac{1}{3}$$ $$n=3:\quad \frac{1}{2}-\frac{1}{4}$$ $$n=4:\quad \frac{1}{3}-\frac{1}{5}$$ $$n=5:\quad \frac{1}{4}-\frac{1}{6}$$

Aqui cada termo negativo só encontra seu par duas linhas adiante, não na linha seguinte. O \(-\tfrac13\) morre com o \(+\tfrac13\) de \(n=4\), o \(-\tfrac14\) com o \(+\tfrac14\) de \(n=5\), e assim por diante. Sobram duas pontas de cada lado:

$$S_N = \frac{1}{2}\left(1+\frac{1}{2}-\frac{1}{N}-\frac{1}{N+1}\right)$$

Essa é a forma fechada. Agora o limite:

$$\lim_{N\to+\infty} S_N = \frac{1}{2}\left(1+\frac{1}{2}-0-0\right) = \frac{1}{2}\cdot\frac{3}{2} = \frac{3}{4}$$

O limite existe e é finito, logo a série converge, e

$$\sum_{n=2}^{+\infty}\frac{1}{n^2-1} = \frac{3}{4}$$
O valor da integral não é a soma da sérieNo tópico 11 a mesma série dá \(\int_2^{+\infty}\frac{dx}{x^2-1} = \tfrac12\ln 3 \approx 0{,}549\), e aqui a soma deu \(\tfrac34 = 0{,}75\). Não há contradição: o Teste da Integral compara série e integral só para decidir se convergem juntas — ele nunca diz quanto a série vale. Trocar um pelo outro é erro de prova.
Conte as pontas antes de escrever \(S_N\)O salto entre os dois denominadores diz quantos termos sobram em cada extremidade. Salto 1, como em \(\frac1n-\frac1{n+1}\), deixa uma ponta de cada lado; salto 2, como aqui, deixa duas. Escrever quatro ou cinco termos abertos antes de concluir é o que evita esse erro.
A2 · 08

Teste da divergência

Teorema

Se a série \(\sum a_n\) converge, então \(\lim_{n\to\infty} a_n = 0\).

Como se usa na prática — a contrapositiva $$\lim_{n\to\infty} a_n \neq 0 \implies \text{a série \textbf{diverge}}$$

É o primeiro teste a aplicar em qualquer série: olhar o termo geral.

Exemplo · \(\sum (1-e^{-n})\) $$\lim_{n\to+\infty}\left(1-e^{-n}\right) = 1 \neq 0$$

Logo a série diverge.

Exemplo · \(\sum \frac{n^2}{2n^2+n+\sqrt{n}}\) $$\lim_{n\to+\infty}\frac{n^2}{2n^2+n+\sqrt{n}} = \frac{1}{2} \neq 0$$

Logo a série diverge. Repare que o termo geral tende a um número perfeitamente finito — e é justamente por não ser zero que a série estoura.

A2 · 09

A harmônica: o contraexemplo que fecha o teste

A série $$\sum_{n=1}^{\infty}\frac{1}{n} = 1+\frac{1}{2}+\frac{1}{3}+\dots = S, \qquad \lim_{n\to\infty}\frac{1}{n}=0$$

O termo geral vai a zero. Mesmo assim, a série diverge.

A recíproca do teste da divergência é falsaEsta é a série que você tem de lembrar na prova. \(a_n\to 0\) não garante convergência. O teste da divergência só serve para rejeitar: se o limite não for zero, diverge; se for zero, ele não conclui nada e é preciso outro teste.
A2 · 10

A série \(\sum n^n/n!\)

Exemplo $$\sum_{n=1}^{\infty}\frac{n^n}{n!} = \frac{1}{1}+\frac{2^2}{2!}+\dots$$

Escrevendo os dois fatoriais lado a lado, com a mesma quantidade de fatores:

$$\frac{n^n}{n!} = \frac{n\cdot n\cdot\;\dots\;\cdot n}{n(n-1)(n-2)\cdots 2\cdot 1}$$ $$= \frac{n}{n}\cdot\frac{n}{n-1}\cdot\frac{n}{n-2}\cdots\frac{n}{2}\cdot\frac{n}{1}$$

Cada fator é \(\ge 1\), e o último vale \(n\). Portanto

$$\frac{n^n}{n!} \;\ge\; 1\cdot 1\cdots 1\cdot n \;=\; n \qquad\Longrightarrow\qquad \lim_{n\to+\infty}\frac{n^n}{n!} = +\infty$$

O termo geral nem sequer é limitado, muito menos vai a zero: a série diverge pelo teste da divergência.

A2 · 11

Teste da Integral

Teorema

Seja \(\sum a_n\) uma série de termos positivos e \(f:(0,+\infty)\to\mathbb{R}\) tal que

  • \(f(n) = a_n\), e
  • \(f\) é decrescente.

Então a série \(\sum_{n=1}^{+\infty}a_n\) e a integral \(\int_1^{+\infty}f(x)\,dx\) convergem ou divergem juntas.

Exemplo (a) · converge

\(\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{1}{n^2+1}\) com \(f(x)=\frac{1}{x^2+1}\):

$$\int_1^{+\infty}\frac{1}{x^2+1}\,dx = \operatorname{arctg}(x)\Big|_1^{+\infty} = \frac{\pi}{2}-\frac{\pi}{4} = \frac{\pi}{4}$$

A integral é finita, logo a série converge.

Obs. A primitiva sai da derivada do arco-tangente, \(\left(\operatorname{arctg} x\right)' = \frac{1}{x^2+1}\) — reconhecer esse formato evita qualquer substituição. Nos extremos: \(\operatorname{arctg}(x)\to\frac{\pi}{2}\) quando \(x\to+\infty\), e \(\operatorname{arctg}(1)=\frac{\pi}{4}\) porque \(\tan\frac{\pi}{4}=1\).

Exemplo (b) · diverge

\(\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{1}{n}\) com \(f(x)=\frac{1}{x}\):

$$\int_1^{+\infty}\frac{1}{x}\,dx = \ln(x)\Big|_1^{+\infty} = +\infty$$

Obs. \(1/x\) é a única potência que não integra pela regra da potência — cai no logaritmo. E \(\ln(x)\to+\infty\), devagar, mas sem parar; em \(x=1\) vale 0.

É a mesma harmônica do tópico 09 — aqui a divergência sai direto da integral.

Exemplo (c) · com frações parciais

\(\sum_{n=2}^{+\infty}\frac{1}{n^2-1}\) com \(f(x)=\frac{1}{x^2-1}\):

Primeiro fatora-se o denominador, que é diferença de quadrados:

$$\int_2^{+\infty}\frac{1}{x^2-1}\,dx = \int_2^{+\infty}\frac{1}{(x+1)(x-1)}\,dx$$

Agora frações parciais, uma incógnita sobre cada fator:

$$\frac{1}{(x+1)(x-1)} = \frac{A}{x+1}+\frac{B}{x-1}$$

Multiplicando tudo por \((x+1)(x-1)\):

$$1 = A(x-1) + B(x+1)$$

Escolhendo as raízes do denominador, uma de cada vez:

$$x=1:\quad 1 = 0 + B(2) \implies B = \tfrac{1}{2}$$ $$x=-1:\quad 1 = A(-2) + 0 \implies A = -\tfrac{1}{2}$$

Com \(A\) e \(B\) na mão, a integral vira uma soma de dois logaritmos:

$$= \int_2^{+\infty}\left(\frac{-1/2}{x+1}+\frac{1/2}{x-1}\right)dx$$ $$= \left(-\tfrac{1}{2}\ln(x+1)+\tfrac{1}{2}\ln(x-1)\right)\Big|_2^{+\infty}$$

Juntando os dois logaritmos em um só:

$$= \frac{1}{2}\ln\left(\frac{x-1}{x+1}\right)\Big|_2^{+\infty}$$

No limite superior, \(\frac{x-1}{x+1}\to 1\) e \(\ln 1 = 0\). Sobra só o valor em \(x=2\), com o sinal trocado:

$$= 0 - \frac{1}{2}\ln\left(\frac{1}{3}\right) = -\frac{1}{2}\ln\left(\frac{1}{3}\right) = \frac{1}{2}\ln 3 \approx 0{,}549$$

Valor finito, logo a série converge. Repare que a série começa em \(n=2\) — em \(n=1\) o denominador zeraria.

Obs. 1 · a integral de cada pedaço. \(\int\frac{dx}{x+a} = \ln|x+a|\) sai por substituição \(u=x+a\), que dá \(du=dx\) e devolve \(\int\frac{du}{u}=\ln|u|\). Como aqui \(x\ge 2\), os dois argumentos são positivos e o módulo pode cair.

Obs. 2 · juntar os logaritmos. É a regra \(\ln P - \ln Q = \ln\frac{P}{Q}\): o \(\tfrac12\) em evidência deixa \(\tfrac12\left(\ln(x-1)-\ln(x+1)\right)\), que vira \(\tfrac12\ln\frac{x-1}{x+1}\). Sem essa junção, o limite em \(+\infty\) daria \(\infty-\infty\) e não se resolveria direto.

A2 · 12

p-série

A família $$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{1}{n^p}$$
Caso \(p\le 0\) · pelo teste da divergência

A série vira \(\sum n^{-p}\) com expoente \(-p\ge 0\), e

$$\lim_{n\to+\infty} n^{-p} \ge 1 \neq 0$$

Logo diverge, sem precisar de integral.

Caso \(p>0\) e \(p\neq 1\) · pela integral $$\int_1^{+\infty}\frac{1}{x^p}\,dx = \int_1^{+\infty} x^{-p}\,dx = \frac{x^{-p+1}}{-p+1}\Big|_1^{+\infty}$$

Obs. É a regra da potência, \(\int x^k\,dx = \frac{x^{k+1}}{k+1}\), aqui com \(k=-p\). Ela exige \(k\neq -1\), ou seja \(p\neq 1\) — é exatamente por isso que \(p=1\) foi separado: naquele caso o denominador \(-p+1\) zeraria, e a primitiva é o logaritmo do exemplo anterior.

Agora é só olhar o sinal do expoente:

Se \(-p+1>0\), então \(x^{-p+1}\to+\infty\) e a integral diverge.

Se \(-p+1<0\), ou seja \(p>1\), a integral vale \(\frac{1}{p-1}\) e converge.

Conclusão — decorar esta

Se \(p\le 1\), diverge.

Se \(p>1\), converge.

O caso da fronteira\(p=1\) é exatamente a harmônica, e fica do lado que diverge. É o limiar do assunto: \(\sum 1/n\) diverge, mas \(\sum 1/n^{1{,}0001}\) converge.
Exemplo extra · fora do slide · \(\sum \frac{1}{\sqrt[5]{n}}\)

Uma vez decorada a conclusão, classificar uma p-série não tem conta nenhuma: o serviço inteiro é enxergar o \(p\). E raiz é potência fracionária.

$$\sqrt[5]{n} = n^{1/5} \qquad\Longrightarrow\qquad \frac{1}{\sqrt[5]{n}} = \frac{1}{n^{1/5}}$$

Comparando com a família \(\sum 1/n^p\), lê-se \(p=\frac{1}{5}\). Como \(\frac{1}{5}\le 1\):

$$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{1}{\sqrt[5]{n}} \quad \textbf{diverge}$$

Foi só reescrever a raiz e olhar a tabela. Nenhuma integral, nenhuma comparação.

O mesmo olho, em quatro variações da raiz quinta

Todo o jogo é juntar os expoentes de \(n\) num só e comparar com 1:

SérieComo potência\(p\)Veredito
\(\sum \frac{1}{\sqrt[5]{n}}\)\(\sum n^{-1/5}\)\(\frac{1}{5}\)diverge
\(\sum \frac{\sqrt[5]{n}}{n}\)\(\sum n^{-4/5}\)\(\frac{4}{5}\)diverge
\(\sum \frac{1}{n\sqrt[5]{n}}\)\(\sum n^{-6/5}\)\(\frac{6}{5}\)converge
\(\sum \frac{1}{n^2\sqrt[5]{n}}\)\(\sum n^{-11/5}\)\(\frac{11}{5}\)converge

Obs. As contas de expoente são todas a mesma regra, \(n^a\cdot n^b = n^{a+b}\): \(n\sqrt[5]{n} = n^{1}n^{1/5} = n^{6/5}\), e \(\frac{\sqrt[5]{n}}{n} = n^{1/5-1} = n^{-4/5}\).

Repare como a virada acontece entre a segunda e a terceira linha, sem nada de dramático mudar na aparência da série. O que decide é só o expoente cruzar o 1.

Aqui o teste da divergência não ajudaEm \(\sum 1/\sqrt[5]{n}\) o termo geral vai a zero, então o teste da divergência não conclui nada — e mesmo assim a série diverge. Dentro da p-série ele só resolve o caso \(p\le 0\), que é justamente aquele em que \(a_n\) não vai a zero. Para \(p>0\), quem responde é a regra do \(p\).
A2 · 13

Teste de comparação

Teorema

Sejam \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\) séries de termos positivos. Se \(a_n \le b_n\) para cada \(n\), então:

1) se \(\sum b_n\) converge, então \(\sum a_n\) converge;

2) se \(\sum a_n\) diverge, então \(\sum b_n\) diverge.

Exemplo (a)

\(\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{n-5}{n^3+2n+1}\) converge, pois

$$\frac{n-5}{n^3+2n+1} \;\le\; \frac{n}{n^3+2n+1} \;<\; \frac{n}{n^3} = \frac{1}{n^2}$$

e \(\sum 1/n^2\) é p-série com \(p=2>1\), que converge.

Exemplo (b) · \(\sum n!/n^n\)

É a série invertida do tópico 10. Escrevendo os fatores:

$$\frac{n!}{n^n} = \frac{n}{n}\cdot\frac{n-1}{n}\cdots\frac{2}{n}\cdot\frac{1}{n}$$

Todos os fatores são \(\le 1\); guardando apenas os dois últimos:

$$\frac{n!}{n^n} \;\le\; \frac{2}{n^2}$$

Como \(\sum 2/n^2\) converge, a série converge.

Exemplo extra · fora do slide

Quando a desigualdade falha por pouco, multiplique a série de comparação por uma constante. Constante positiva não muda convergência — se \(\sum b_n\) converge, \(\sum c\,b_n\) converge; se diverge, continua divergindo. Ela só ajusta a folga para a desigualdade fechar.

Teste \(\sum_{i=2}^{\infty}\frac{1}{i^2-i}\). O candidato natural é \(b_i=\frac{1}{i^2}\), já que \(i^2-i \approx i^2\) para \(i\) grande. Mas a comparação direta não fecha:

$$\frac{1}{i^2-i} \le \frac{1}{i^2} \iff i^2 \le i^2-i \iff 0 \le -i$$

falso para todo \(i\ge 2\). E faz sentido: subtrair \(i\) deixa o denominador menor, então a fração fica maior que \(1/i^2\) — o contrário do que se precisava. Em \(i=2\): \(a_2=\frac{1}{2}\) contra \(b_2=\frac{1}{4}\).

Dobrando a série de comparação:

$$\frac{1}{i^2-i} \le \frac{2}{i^2} \iff i^2 \le 2i^2-2i \iff 2i \le i^2 \iff i \ge 2$$

Verdadeiro exatamente no domínio da soma. Em \(i=2\) dá igualdade, e em \(i=3\) já há folga: \(\frac{1}{6}\approx 0{,}167\) contra \(\frac{2}{9}\approx 0{,}222\).

Como \(\sum\frac{2}{i^2} = 2\sum\frac{1}{i^2}\) é constante vezes p-série com \(p=2\), converge. Logo \(\sum\frac{1}{i^2-i}\) converge.

Termos positivos, sempreOs dois testes de comparação exigem termos positivos. No exemplo (a) os quatro primeiros termos são negativos (\(n<5\)), o que a rigor viola a hipótese — mas convergência não depende de uma quantidade finita de termos, então a conclusão se mantém. Numa prova, vale escrever essa ressalva.
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A regra do grau

Atalho para funções racionais

Numa série do tipo \(\sum \frac{n^a+\dots}{n^b+\dots}\), só os graus dominantes importam:

Se \(b-a>0\), compare com \(\sum \frac{1}{n^{\,b-a}}\).

Se \(b-a<0\), compare com \(\sum n^{\,a-b}\).

Onde isso apareceu

As comparações da aula seguem esse padrão: \(\sum_{n=2}^{+\infty}\frac{1}{n^2-1}\) e \(\sum\frac{1}{n^2-n-1}\) caem ambas em \(\sum\frac{1}{n^2}\), com \(b-a=2\).

É um atalho de escolha, não de provaA regra do grau serve para escolher a série de comparação. A justificativa ainda tem de ser escrita — via comparação ou via comparação no limite.
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Teste da comparação no limite

Teorema

Sejam \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\) séries de termos positivos. Se

$$\lim_{n\to+\infty}\frac{a_n}{b_n} = c, \qquad \text{onde } 0<c<+\infty,$$

então ambas as séries convergem, ou ambas divergem.

Exemplo · \(1/n^2\) contra \(1/(n^2-n-1)\) $$\frac{\dfrac{1}{n^2}}{\dfrac{1}{n^2-n-1}} = \frac{n^2-n-1}{n^2} = 1-\frac{1}{n}-\frac{1}{n^2}$$ $$\xrightarrow[n\to+\infty]{} 1$$

O limite é 1, que está entre 0 e \(+\infty\). Como \(\sum 1/n^2\) converge, \(\sum\frac{1}{n^2-n-1}\) também converge.

O caso de fronteira · \(c=+\infty\)

Comparando \(\sum 1/n^2\) com \(\sum 1/n^3\):

$$\frac{1/n^2}{1/n^3} = \frac{n^3}{n^2} = n \xrightarrow[n\to+\infty]{} +\infty$$

Aqui \(c\) não é finito, então o teorema não se aplica na forma acima. O que se usa é a leitura direta: \(\frac{a_n}{b_n}\ge M \iff a_n \ge M\,b_n\) — ou seja, \(a_n\) domina \(b_n\), e volta-se ao teste de comparação simples.

Quando preferir este ao de comparaçãoO teste de comparação exige montar a desigualdade \(a_n\le b_n\), o que às vezes dá trabalho. A comparação no limite só pede um limite de quociente — e por isso é o caminho natural para funções racionais, combinada com a regra do grau.
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Estimativa de resto

A pergunta

Quantos termos preciso somar para que o erro cometido seja menor que um \(\varepsilon\) dado? A cauda que sobra é limitada pela integral.

Exemplo · \(\sum 1/n^3\) com \(\varepsilon<0{,}001\) $$\int_n^{+\infty}\frac{1}{x^3}\,dx = -\frac{1}{2x^2}\Big|_n^{+\infty} = \frac{1}{2n^2}$$

Obs. Mesma regra da potência: \(\int x^{-3}dx = \frac{x^{-2}}{-2} = -\frac{1}{2x^2}\). No limite superior esse termo tende a 0, então sobra apenas \(-\left(-\frac{1}{2n^2}\right) = \frac{1}{2n^2}\) — o sinal negativo da primitiva com o da subtração dos extremos.

Impondo que esse resto seja menor que o erro pedido:

$$\frac{1}{2n^2} < \frac{1}{10^3}$$ $$n^2 > \frac{10^3}{2} = 500$$ $$n > 10\sqrt{5}$$

Como \(10\sqrt{5}\approx 22{,}4\), bastam 23 termos para garantir erro menor que 0,001.

Revisão

Checklist da A2

Se você consegue responder tudo abaixo sem consultar, a aula está fechada.

PerguntaOnde está
Definir série como limite das somas parciaisSomas parciais e definição
Mostrar que \(\sum(-1)^{n+1}\) diverge só pela definiçãoA série alternada
Dizer para quais \(q\) a geométrica converge e qual é a somaSérie geométrica
Reconhecer \(a_n = b_n - b_{n+1}\) e somar pelos quatro passosSérie telescópica
Dizer quando uma telescópica diverge, apesar do cancelamentoSérie telescópica
Decompor em frações parciais, achar \(S_N\) e dar a soma exataFrações parciais: decidir e somar
Aplicar o teste da divergência e saber quando ele não concluiTeste da divergência
Lembrar que a harmônica diverge mesmo com \(a_n\to 0\)A harmônica
Verificar as três hipóteses do Teste da Integral antes de usá-loTeste da Integral
Resolver \(\int 1/(x^2-1)\) por frações parciaisTeste da Integral (c)
Classificar uma p-série nos três casos de \(p\)p-série
Reescrever raiz como expoente fracionário para ler o \(p\)p-série
Montar a desigualdade de comparação para uma racionalTeste de comparação
Ajustar a comparação com uma constante quando a desigualdade direta falhaTeste de comparação
Escolher a série de comparação pela regra do grauA regra do grau
Usar a comparação no limite e reconhecer o caso \(c=+\infty\)Comparação no limite
Dizer quantos termos garantem um erro dadoEstimativa de resto