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MAT039 · Cálculo II · 2026/2

Séries de potênciassemelhança, raio de convergência e extremos

A aula tem duas metades. Na primeira, seis séries no quadro fecham o arsenal de testes da A2 e da A3 — e a primeira delas ensina a estratégia mais rentável de todas: trocar a série pela série parecida, olhando só o termo dominante. Na segunda, o assunto muda: x entra na série, e a pergunta deixa de ser "converge?" para virar "converge para quais x?".

Aula: A4 Tópicos: 10 Pré-requisito: A2 e A3 Atualizado: 23/08/2026
Parte 1Seis séries no quadro
A4 · 01

A estratégia da semelhança

A primeira série do quadro não foi escolhida pelo resultado, e sim pelo método:

$$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{\sqrt{n^{3}+1}}{n^{3}+n^{2}+1}$$
A estratégia — só o termo de maior relevância

Quando \(n\to+\infty\), dentro de cada bloco de soma só o termo de maior grau sobrevive: o \(+1\) some diante do \(n^3\), e o \(n^2+1\) some diante do \(n^3\). Apaga-se todo o resto e sobra uma série semelhante, que é a que se sabe classificar:

$$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{\sqrt{n^{3}+1}}{n^{3}+n^{2}+1} \;\sim\; \sum\frac{\sqrt{n^{3}}}{n^{3}}$$ $$\sum\frac{\sqrt{n^{3}}}{n^{3}} \;=\; \sum_{n=1}^{+\infty}\frac{1}{n^{3/2}}$$

Obs. \(\sqrt{n^3} = n^{3/2}\), e \(n^{3/2}/n^{3} = n^{-3/2}\). O resultado é uma p-série com \(p = 3/2 > 1\), que converge.

O símbolo \(\sim\) não é igualdade: é "tem o mesmo destino". Quem transforma o palpite em resposta é a comparação no limite, logo abaixo.

Exemplo · antes de tudo, o teste mais barato

O teste da divergência não decide nada aqui, porque o termo geral vai a zero — grau 3/2 em cima contra grau 3 embaixo:

$$\lim_{n\to+\infty}\frac{\sqrt{n^{3}+1}}{n^{3}+n^{2}+1} = 0$$

Ir a zero é condição necessária, não suficiente. Só sobra o caminho da comparação.

Exemplo · a conta que legaliza o palpite

Comparação no limite com \(b_n = 1/n^{3/2}\), que é exatamente a série semelhante:

$$\frac{a_n}{b_n} = \frac{\dfrac{\sqrt{n^{3}+1}}{n^{3}+n^{2}+1}}{\dfrac{1}{n^{3/2}}} = \frac{n^{3/2}\,\sqrt{n^{3}+1}}{n^{3}+n^{2}+1}$$

Agora põe-se \(n^3\) em evidência em cima e embaixo:

$$= \frac{n^{3/2}\cdot n^{3/2}\left(1+\dfrac{1}{n^{3}}\right)^{1/2}}{n^{3}\left(1+\dfrac{1}{n}+\dfrac{1}{n^{3}}\right)}$$

Obs. Dentro da raiz: \(\sqrt{n^3+1} = \sqrt{n^{3}\left(1+\frac{1}{n^{3}}\right)} = n^{3/2}\left(1+\frac{1}{n^{3}}\right)^{1/2}\). O expoente \(1/2\) é a raiz quadrada escrita como potência.

Os \(n^{3/2}\cdot n^{3/2} = n^{3}\) de cima cancelam com o \(n^{3}\) de baixo, e todas as frações \(1/n\) vão a zero:

$$= \frac{\left(1+\dfrac{1}{n^{3}}\right)^{1/2}}{1+\dfrac{1}{n}+\dfrac{1}{n^{3}}} \xrightarrow[n\to+\infty]{} \frac{1}{1} = 1$$

O limite é \(c=1\), com \(0<c<+\infty\): as duas séries têm o mesmo destino. Como \(\sum 1/n^{3/2}\) é p-série com \(p>1\) e converge, a série original converge.

Como usar isso numa prova fechadaDiante de qualquer quociente de polinômios, raízes incluídas, faça primeiro o descarte mental: fique só com o maior grau de cima e o maior grau de baixo, simplifique e leia o \(p\). Isso já te dá a resposta em dez segundos — converge se \(p>1\), diverge se \(p\le 1\) — e você sabe para onde a questão vai antes de escrever a primeira linha. Depois disso, a comparação no limite é só a redação da justificativa, e ela é sempre a mesma: divide pela série semelhante, põe o maior grau em evidência, mostra que o limite é 1.
A4 · 02

A série \(\sum \ln(n)/\sqrt{n}\) e sua alternada

As duas foram escritas lado a lado no quadro, e é a comparação entre elas que interessa.

Exemplo · a série de termos positivos $$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{\ln(n)}{\sqrt{n}}$$

Comparação direta, sem limite nenhum: basta ver que o numerador passa de 1.

$$\frac{\ln(n)}{\sqrt{n}} \ge \frac{1}{\sqrt{n}}, \qquad \text{se } n \ge 3$$

Obs. A condição sai de \(\ln(n)\ge 1\), que vale a partir de \(n \ge e \approx 2{,}718\) — ou seja, do \(n=3\) em diante.

A série menor, \(\sum 1/\sqrt{n}\), é p-série com \(p = 1/2 \le 1\): diverge. Se a menor já diverge, a maior diverge junto. Logo \(\sum \ln(n)/\sqrt{n}\) diverge.

Exemplo · a mesma série, agora alternada $$\sum_{n=2}^{+\infty}(-1)^{n-1}\frac{\ln(n)}{\sqrt{n}}$$

Teste da série alternada, com \(b_n = \ln(n)/\sqrt{n}\). As três hipóteses, uma a uma.

(1) Positividade: para \(n\ge 2\), \(\ln(n)>0\) e \(\sqrt{n}>0\), logo \(b_n \ge 0\).

(2) Decrescimento, pela função associada:

$$f(x) = \frac{\ln(x)}{\sqrt{x}}$$ $$f'(x) = \frac{\dfrac{1}{x}\sqrt{x} - \dfrac{1}{2\sqrt{x}}\ln x}{x}$$

Obs. É a regra do quociente: o denominador \((\sqrt{x})^{2}\) vira o \(x\) de baixo, e a derivada de \(\sqrt x\) é \(1/(2\sqrt x)\). Juntando o numerador sobre \(2x\sqrt{x}\):

$$f'(x) = \frac{\dfrac{2x - x\ln x}{2x\sqrt{x}}}{x}$$

O denominador é positivo, então o sinal é todo do numerador:

$$x\left(2 - \ln x\right) < 0 \quad \Longleftrightarrow \quad \ln x > 2 \quad \Longleftrightarrow \quad x > e^{2}$$

Obs. \(e^{2} \approx 7{,}39\) — ou seja, de \(n = 8\) em diante \(f\) é decrescente, e \(b_n \ge b_{n+1}\). Só a cauda importa, então isso basta.

(3) Termo geral indo a zero, por L'Hôpital:

$$\lim_{n\to+\infty}\frac{\ln n}{\sqrt{n}} = \lim_{n\to+\infty}\frac{\dfrac{1}{n}}{\dfrac{1}{2\sqrt{n}}} = \lim_{n\to+\infty}\frac{2\sqrt{n}}{n} = 0$$

Obs. \(\frac{2\sqrt n}{n} = \frac{2}{\sqrt n}\), que vai a zero. As três hipóteses valem: a série alternada converge.

Por que as duas juntasA série dos módulos de \(\sum(-1)^{n-1}\ln(n)/\sqrt{n}\) é exatamente a primeira do tópico, que diverge. Então a alternada converge, mas não converge absolutamente — é o caso de convergência condicional que a A3 anunciou. O quadro colocou as duas lado a lado justamente para isso: mesmo termo geral, um sinal de diferença, dois destinos diferentes.
A4 · 03

A transformação \(a^{b} = e^{\,b\ln a}\)

Esta é a manobra que aparece sem aviso no meio de vários exercícios — e é a mesma sempre. Vale a pena isolá-la aqui, porque os três tópicos seguintes dependem dela.

De onde ela vem

Exponencial e logaritmo natural são funções inversas. Isso é a definição do \(\ln\):

$$e^{\ln a} = a, \qquad \text{para todo } a > 0$$

Então qualquer base positiva pode ser reescrita como uma exponencial. Elevando os dois lados a \(b\) e usando \(\left(e^{u}\right)^{v} = e^{uv}\):

$$a^{b} = \left(e^{\ln a}\right)^{b} = e^{\,b\,\ln a}$$

É só isso. A base sobe para dentro do \(\ln\), o expoente vira um fator multiplicando, e tudo passa a morar num único expoente.

Para que ela serve

Enquanto base e expoente dependem os dois de \(n\), não existe regra de limite que ataque a potência: não dá para "passar o limite" só na base, nem só no expoente. Depois da transformação, o problema inteiro fica num só lugar — o expoente — e ele é um produto, que já se sabe tratar.

O que fecha a conta é a continuidade da exponencial, que permite entrar com o limite:

$$\lim_{n\to+\infty} e^{\,u_n} = e^{\,\lim\limits_{n\to+\infty} u_n}$$

Ou seja: calcula-se o limite do expoente, e só no fim se aplica o \(e\). As três leituras que resolvem quase tudo:

$$e^{\,0} = 1, \qquad e^{\,-\infty} = 0, \qquad e^{\,+\infty} = +\infty$$
Exemplo · as quatro vezes em que ela aparece nesta aula

Sempre o mesmo movimento, com bases diferentes:

$$n^{1+\frac{1}{n}} = n^{\frac{n+1}{n}} = e^{\frac{n+1}{n}\ln(n)} \qquad \text{(tópico 04)}$$ $$n^{\frac{1}{n}} = e^{\ln\left(n^{1/n}\right)} = e^{\frac{1}{n}\ln(n)} \xrightarrow[n\to+\infty]{} 1$$

— tópico 04, e é o resultado mais reaproveitado da aula.

$$\left(\ln n\right)^{\ln(n)} = e^{\ln(n)\,\cdot\,\ln\left(\ln(n)\right)} \qquad \text{(tópico 05)}$$ $$\left(\frac{x-1}{x+1}\right)^{x} = e^{\,x\ln\left(\frac{x-1}{x+1}\right)} \qquad \text{(A3, tópico 10)}$$

Repare no segundo: o expoente \(\frac{\ln n}{n}\) vai a zero, logo \(n^{1/n}\to 1\). Esse resultado sozinho resolve dois exercícios desta aula.

Duas condições e uma pegadinhaA transformação exige \(a>0\) — não existe \(\ln\) de base negativa ou nula. E o sinal do expoente é que manda: \(e^{u}\) nunca é negativo, então uma potência transformada nunca muda de sinal no caminho. A pegadinha clássica é achar que \(n^{1/n}\to 0\) porque \(1/n\to 0\), ou \(\to+\infty\) porque \(n\to+\infty\): as duas coisas brigam, e quem decide é o limite do produto \(\frac{1}{n}\ln n\), que dá 0 — resposta 1.
A4 · 04

Quando o expoente varia: \(\sum 1/n^{1+\frac{1}{n}}\)

$$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{1}{n^{\,1+\frac{1}{n}}}$$

Parece p-série com \(p = 1+\frac{1}{n} > 1\), o que daria convergência na hora. Mas p-série exige \(p\) constante, e aqui o expoente depende de \(n\). O primeiro passo é reescrever o denominador:

$$n^{\,1+\frac{1}{n}} = n^{\frac{n+1}{n}} = e^{\frac{n+1}{n}\ln(n)}$$
Exemplo · tentando o teste da raiz $$\sqrt[n]{a_n} = \left(\frac{1}{n^{\frac{n+1}{n}}}\right)^{\frac{1}{n}} = \frac{1}{n^{\frac{n+1}{n^{2}}}}$$

Obs. Potência de potência multiplica expoentes: \(\frac{n+1}{n}\cdot\frac{1}{n} = \frac{n+1}{n^{2}}\).

Agora a transformação do tópico 03, no denominador:

$$n^{\frac{n+1}{n^{2}}} = e^{\frac{n+1}{n^{2}}\ln(n)} = e^{\dfrac{\ln(n)}{\frac{n^{2}}{n+1}}}$$

O expoente tem \(\ln n\) em cima contra algo que cresce como \(n\) embaixo: vai a zero. Logo o denominador tende a \(e^{0}=1\), e

$$L = \lim_{n\to+\infty}\sqrt[n]{a_n} = 1$$

Teste da raiz inconclusivo.

Exemplo · comparação no limite com a harmônica

Volta a estratégia da semelhança: o expoente \(1+\frac1n\) encosta em 1, então a série parecida é \(\sum \frac{1}{n}\).

$$\frac{\dfrac{1}{n}}{\dfrac{1}{n^{\,1+\frac{1}{n}}}} = \frac{n^{\,1+\frac{1}{n}}}{n} = n^{\frac{1}{n}}$$

E esse é o limite do tópico 03:

$$n^{\frac{1}{n}} = e^{\ln\left(n^{1/n}\right)} = e^{\frac{1}{n}\ln(n)}$$

O expoente sai por L'Hôpital:

$$\frac{\ln n}{n} \;\sim\; \frac{\frac{1}{n}}{1} \xrightarrow[n\to+\infty]{} 0$$ $$\Longrightarrow\quad n^{\frac{1}{n}} \longrightarrow e^{0} = 1$$

O limite é \(c=1\), com \(0<c<+\infty\). Como a harmônica \(\sum 1/n\) diverge, a série diverge também.

O \(+\frac{1}{n}\) não salva ninguémA tentação é dizer "o expoente é maior que 1, então converge". Não converge: o excesso sobre 1 encolhe rápido demais para mudar o destino, e a série se comporta exatamente como a harmônica. p-série só vale com \(p\) fixo — expoente com \(n\) dentro exige a conta inteira.
A4 · 05

A série \(\sum 1/(\ln n)^{\ln n}\)

$$\sum_{n=2}^{+\infty}\frac{1}{\left(\ln n\right)^{\ln(n)}}$$

Base e expoente dependem de \(n\), os dois com logaritmo: é o caso exato do tópico 03.

Primeiro movimento — jogar tudo para a cauda $$\sum_{n=2}^{+\infty}\frac{1}{\left(\ln n\right)^{\ln(n)}} = \underbrace{\frac{1}{\left(\ln 2\right)^{\ln 2}} + \dots}_{\text{finito}}$$ $$+\; \sum_{n>e^{e^{2}}}\frac{1}{\left(\ln n\right)^{\ln n}}$$

Um número finito de termos na frente é só uma constante somada: não muda convergência nenhuma. Quem decide o destino é a cauda, e é nela que a desigualdade vai valer.

Exemplo · de onde sai o corte \(n>e^{e^{2}}\)

A transformação do tópico 03:

$$\left(\ln n\right)^{\ln(n)} = e^{\,\ln(n)\,\cdot\,\ln\left(\ln(n)\right)}$$

O que se quer é forçar \(\ln(\ln(n)) \ge 2\). O valor de corte é o \(n\) em que dá exatamente 2:

$$\ln\left(\ln\left(e^{e^{2}}\right)\right) = \ln\left(e^{2}\ln e\right) = \ln\left(e^{2}\right) = 2$$

Obs. \(\ln\left(e^{e^{2}}\right) = e^{2}\ln e = e^{2}\), porque \(\ln e = 1\). Como \(\ln(\ln(n))\) é crescente, a partir de \(n > e^{e^{2}}\) vale \(\ln(\ln(n)) \ge 2\).

Exemplo · a comparação, na cauda

Com \(\ln(\ln n)\ge 2\), multiplica-se os dois lados por \(\ln(n)\), que é positivo:

$$\ln(n)\cdot\ln\left(\ln(n)\right) \;\ge\; 2\ln(n) = \ln\left(n^{2}\right)$$

Obs. \(2\ln n = \ln(n^{2})\) pela propriedade do expoente do logaritmo. Agora aplica-se \(e^{(\cdot)}\) nos dois lados, que é crescente e preserva a desigualdade:

$$\left(\ln(n)\right)^{\ln(n)} = e^{\ln(n)\ln(\ln(n))} \;\ge\; e^{\ln\left(n^{2}\right)} = n^{2}$$

Denominador maior significa fração menor, e a comparação sai direto:

$$\Longrightarrow \sum_{n>e^{e^{2}}}\frac{1}{\left(\ln n\right)^{\ln n}} \;<\; \sum_{n=1}^{+\infty}\frac{1}{n^{2}}$$

A da direita é p-série com \(p=2>1\), que converge. A cauda converge, e somar os termos finitos da frente não estraga nada: a série converge.

Logaritmo cresce devagar, mas \(\ln n\) no expoente nãoBate o olho e parece que \((\ln n)^{\ln n}\) cresce devagar, porque tudo ali é logaritmo. É o contrário: ele passa \(n^{2}\), e na verdade passa qualquer potência de \(n\), bastando trocar o 2 por \(k\) no mesmo argumento. O que engana é olhar a base sem olhar o expoente.
A4 · 06

Teste da integral em \(\sum n\,e^{-n^{2}}\)

$$\sum_{n=1}^{+\infty} n\,e^{-n^{2}}$$

Não é razão de polinômios, não é potência de expoente \(n\) e não tem fatorial — mas a função associada tem primitiva fácil, e aí o teste da integral é o caminho.

Exemplo · a integral imprópria $$\int_{1}^{+\infty} x\,e^{-x^{2}}\,dx = \lim_{b\to+\infty}\int_{1}^{b} x\,e^{-x^{2}}\,dx$$

Substituição, com o expoente como novo nome:

$$u = x^{2}, \qquad du = 2x\,dx$$ $$\frac{1}{2}\,du = x\,dx$$ $$\int x\,e^{-x^{2}}\,dx = \frac{1}{2}\int e^{-u}\,du = -\frac{1}{2}e^{-u} = -\frac{1}{2}e^{-x^{2}}$$

Obs. O \(x\,dx\) que sobrava fora da exponencial é justamente o que a substituição consome — por isso ela funciona aqui e não funcionaria em \(\int e^{-x^{2}}dx\) sozinho.

Voltando aos limites de integração:

$$= \lim_{b\to+\infty}\left[-\frac{1}{2}e^{-x^{2}}\right]_{1}^{b}$$ $$= \lim_{b\to+\infty}\left(-\frac{1}{2e^{\,b^{2}}} + \frac{1}{2e}\right) = \frac{1}{2e}$$

A integral é finita, logo a série converge.

O valor da integral não é a soma\(\frac{1}{2e}\) responde "converge", e só. Ela não é a soma da série — serve de cota para o resto, como na A2, mas nunca como resultado. Quem troca uma coisa pela outra perde a questão inteira.
Parte 2Séries de potências
A4 · 07

O que é uma série de potências

O modelo de tudo é a série geométrica da A2, lida ao contrário — não como uma soma que dá um número, mas como uma função escrita em soma infinita:

$$\frac{1}{1-x} = 1 + x + x^{2} + \dots, \qquad |x| < 1$$

Repare na condição pendurada no fim. Ela é o assunto da parte 2: a igualdade não vale sempre, vale numa faixa de \(x\).

Definição $$\sum_{n=0}^{+\infty} a_n\left(x-x_0\right)^{n} = a_0 + a_1(x-x_0) + a_2(x-x_0)^{2} + \dots$$

Os \(a_n\) são os coeficientes (números fixos) e \(x_0\) é o centro. Cada vez que se escolhe um \(x\), o que sobra é uma série numérica comum, dessas da parte 1 — e ela pode convergir ou divergir.

A pergunta muda de forma, portanto: não é mais "esta série converge?", e sim "para quais \(x\) ela converge?"

A4 · 08

Raio de convergência

A resposta sai aplicando o teste da razão à série numérica, com \(x\) segurado como constante. Chamando o termo geral de \(A_n = a_n(x-x_0)^{n}\), essa é a conta que se repete em todo exercício:

A conta, uma vez só $$\frac{|A_{n+1}|}{|A_n|} = \frac{|a_{n+1}|\,|x-x_0|^{\,n+1}}{|a_n|\,|x-x_0|^{\,n}} = |x-x_0|\cdot\frac{|a_{n+1}|}{|a_n|}$$

O \(|x-x_0|\) sai inteiro para fora, porque só um expoente sobrou. Passando o limite e chamando de \(L\) o que sobra dos coeficientes:

$$\lim_{n\to+\infty}\frac{|A_{n+1}|}{|A_n|} = |x-x_0|\cdot L$$ $$L = \lim_{n\to+\infty}\frac{|a_{n+1}|}{|a_n|} = \lim_{n\to+\infty}\sqrt[n]{|a_n|}$$

Obs. As duas expressões de \(L\) dão o mesmo número — escolhe-se a mais cômoda, exatamente como na A3: coeficiente com fatorial pede razão, coeficiente elevado a \(n\) pede raiz.

O que o teste da razão devolve

A condição de convergência absoluta é \(|x-x_0|\cdot L < 1\). Dois casos:

  1. Se \(L = 0\), a desigualdade vale sempre: a série converge para todo \(x\in\mathbb{R}\).
  2. Se \(L \neq 0\), divide-se por \(L\):
$$|x-x_0| < \frac{1}{L} \;\Longrightarrow\; -\frac{1}{L} < x-x_0 < \frac{1}{L}$$ $$\Longrightarrow\; x_0 - \frac{1}{L} < x < x_0 + \frac{1}{L}$$

Nessa faixa a série é absolutamente convergente. Batizando \(R = \dfrac{1}{L}\), o raio de convergência, ela é

$$\left(x_0 - R,\; x_0 + R\right)$$

um intervalo aberto centrado em \(x_0\).

Os extremos ficam de fora da contaEm \(x = x_0 \pm R\) tem-se \(|x-x_0|\cdot L = 1\), e esse é justamente o caso inconclusivo da razão e da raiz. O teste não diz nada ali. A única saída é substituir cada extremo na série e analisá-la à mão, como série numérica — e os dois extremos podem dar respostas diferentes. É por isso que todo exercício de série de potências tem três etapas: achar \(R\), testar \(x_0-R\), testar \(x_0+R\).
A4 · 09

Exemplo · \(\sum \frac{(x-1)^{n}}{3^{n}}\)

$$\sum_{n=0}^{+\infty}\frac{\left(x-1\right)^{n}}{3^{n}}$$

Centro \(x_0 = 1\). O termo geral inteiro está elevado a \(n\), então o caminho é a raiz.

Etapa 1 · o intervalo $$\lim_{n\to+\infty}\left(\frac{|x-1|^{n}}{3^{n}}\right)^{\frac{1}{n}} = \frac{|x-1|}{3} < 1$$

A raiz \(n\)-ésima apaga os dois expoentes de uma vez, e nem sobra limite para calcular. Isolando \(x\):

$$\Longrightarrow |x-1| < 3$$ $$\iff -3 < x-1 < 3$$ $$-2 < x < 4$$

Aqui \(R = 3\) e o centro é 1, o que confere: \((1-3,\,1+3)\).

Etapa 2 · o extremo \(x = -2\) $$\sum_{n=0}^{+\infty}\frac{(-2-1)^{n}}{3^{n}} = \sum_{n=0}^{+\infty}\frac{(-1)^{n}3^{n}}{3^{n}}$$ $$= \sum_{n=0}^{+\infty}(-1)^{n}$$

Obs. \((-3)^{n} = (-1)^{n}3^{n}\), e o \(3^{n}\) cancela. Sobra \(1-1+1-1+\dots\): o termo geral não vai a zero, então diverge pelo teste da divergência.

Etapa 3 · o extremo \(x = 4\) $$\sum_{n=0}^{+\infty}\frac{(4-1)^{n}}{3^{n}} = \sum_{n=0}^{+\infty}\frac{3^{n}}{3^{n}}$$ $$= \sum_{n=0}^{+\infty} 1 = +\infty$$

Soma de infinitos uns: diverge.

Conclusão: a série converge exatamente em \((-2,\,4)\), intervalo aberto nos dois lados.

A4 · 10

Exemplo · \(\sum \frac{(x-1)^{n}}{\sqrt{n}}\)

$$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{\left(x-1\right)^{n}}{\sqrt{n}}$$

Mesmo centro do exemplo anterior, mesmo numerador — muda só o denominador. E isso muda o desfecho nos extremos.

Etapa 1 · o intervalo $$\left(\frac{|x-1|^{n}}{n^{1/2}}\right)^{\frac{1}{n}} = \frac{|x-1|}{\left(n^{\frac{1}{n}}\right)^{\frac{1}{2}}} \xrightarrow[n\to+\infty]{} |x-1|$$

Obs. No denominador aparece \(n^{1/n}\), que é o limite do tópico 03: vale \(e^{\frac{1}{n}\ln n}\to e^{0}=1\). Elevado a \(1/2\) continua 1, e o denominador some.

$$|x-1| < 1$$ $$\iff -1 < x-1 < 1$$ $$0 < x < 2$$

Agora \(R = 1\).

Etapa 2 · o extremo \(x = 0\) $$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{(0-1)^{n}}{\sqrt{n}} = \sum_{n=1}^{+\infty}\frac{(-1)^{n}}{\sqrt{n}}$$

É a p-série alternada com \(p = 1/2\), resolvida na A3: \(b_n = 1/\sqrt n\) é positiva, decrescente e vai a zero. Converge.

Etapa 3 · o extremo \(x = 2\) $$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{(2-1)^{n}}{\sqrt{n}} = \sum_{n=1}^{+\infty}\frac{1}{\sqrt{n}}$$

Obs. \(1^{n} = 1\), e some o numerador. É p-série com \(p = 1/2 \le 1\): diverge.

Conclusão: a série converge se

$$x \in \left[\,0,\;2\,\right)$$

Fechado à esquerda, aberto à direita.

Os dois exemplos existem para serem comparadosMesmo centro, mesmo \((x-1)^{n}\), e mesmo assim um intervalo saiu aberto dos dois lados e o outro saiu meio aberto. O raio é decidido pelos coeficientes; os extremos, não — eles dependem da série numérica que sobra em cada ponto, e não há atalho: substitui e testa, um de cada vez. Escrever o intervalo com colchete errado custa a questão mesmo com o \(R\) certo.
FechoChecklist
Revisão

Checklist da A4

Se você consegue responder tudo abaixo sem consultar, a aula está fechada.

PerguntaOnde está
Trocar uma razão de polinômios pela série semelhante, olhando só o maior grauA estratégia da semelhança
Escrever a comparação no limite que justifica a troca, até o limite dar 1A estratégia da semelhança
Comparar direto \(\ln(n)/\sqrt n \ge 1/\sqrt n\) e dizer a partir de qual \(n\)A série \(\ln n/\sqrt n\)
Derivar \(f(x)=\ln(x)/\sqrt{x}\) e achar onde ela passa a decrescerA série \(\ln n/\sqrt n\)
Reconhecer convergência condicional comparando a alternada com a série dos módulosA série \(\ln n/\sqrt n\)
Reescrever \(a^{b}\) como \(e^{b\ln a}\) e calcular o limite pelo expoenteA transformação \(a^{b}=e^{b\ln a}\)
Aplicar de cor \(n^{1/n}\to 1\)A transformação \(a^{b}=e^{b\ln a}\)
Explicar por que \(\sum 1/n^{1+1/n}\) não é p-sérieQuando o expoente varia
Fechar o caso \(L=1\) da raiz por comparação no limite com a harmônicaQuando o expoente varia
Cortar a série na cauda \(n>e^{e^{2}}\) e justificar por que os termos da frente não importamA série \(1/(\ln n)^{\ln n}\)
Mostrar \((\ln n)^{\ln n} \ge n^{2}\) e comparar com a p-sérieA série \(1/(\ln n)^{\ln n}\)
Resolver \(\int_{1}^{+\infty} x e^{-x^{2}}dx\) por substituição e concluir sobre a sérieTeste da integral
Identificar centro e coeficientes de \(\sum a_n(x-x_0)^n\)O que é uma série de potências
Obter \(R = 1/L\) aplicando razão ou raiz ao termo \(A_n\)Raio de convergência
Saber que o teste não decide nos extremos e que cada um se testa à mãoRaio de convergência
Achar o intervalo de \(\sum (x-1)^n/3^n\) e mostrar que os dois extremos divergemExemplo \((x-1)^n/3^n\)
Achar o intervalo de \(\sum (x-1)^n/\sqrt n\) e escrever \([0,2)\) com o colchete certoExemplo \((x-1)^n/\sqrt n\)