De série a função
O quadro abriu recolocando o que a A4 já tinha fechado. Vale reler as duas linhas, porque tudo o que vem depois se apoia nelas — e nenhuma das duas é novidade:
Esta é a única série decorada da aula inteira. Todas as funções da parte 3 saem dela.
O passo novo é de leitura: em vez de olhar a série como uma soma que converge, olha-se para ela como uma função, definida ponto a ponto dentro do intervalo de convergência.
E a soma parcial de ordem \(n\) é um polinômio comum:
$$S_n(x) = \sum_{k=0}^{n} a_k\left(x-x_0\right)^{k}$$Ou seja: \(f\) é o limite de uma sequência de polinômios. Daí a pergunta natural — e nova — desta aula: se cada \(S_n\) se deriva e se integra sem esforço, será que \(f\) herda isso?
Derivação termo a termo
A resposta é sim, e sem cerimônia: deriva-se parcela por parcela, como se a soma fosse finita.
O \(a_0\) é constante e some. Em forma de somatório:
$$f'(x) = \sum_{n=1}^{+\infty} n\,a_n\left(x-x_0\right)^{n-1}, \qquad x\in\left(x_0-R,\;x_0+R\right)$$A cada derivada o índice inicial sobe um, porque mais um termo constante foi zerado. O intervalo \((x_0-R,\,x_0+R)\) é o mesmo: derivar não muda o raio.
Integração termo a termo
Mesma licença do outro lado: a integral entra no somatório.
Cada parcela é uma potência, e integra-se pela regra de sempre: sobe o expoente, divide pelo novo expoente. O índice inicial não muda — nenhum termo desaparece ao integrar.
Trocar \(x\) por outra coisa
A geométrica foi reescrita com outra letra, de propósito, para deixar claro que o papel de \(x\) pode ser ocupado por qualquer coisa:
$$\frac{1}{1-y} = 1 + y + y^{2} + \dots + y^{n} + \dots, \qquad \text{se } |y| < 1$$desde que \(|\operatorname{sen}(x)| < 1\). A condição não é decoração: em \(x=\pi/2\) o seno vale 1, o lado esquerdo explode e a igualdade morre.
O que se põe no lugar de \(y\) costuma ser da forma
$$\boxed{\;y = c\,x^{p}\;}$$mas pode ser qualquer \(y = f(x)\), contanto que
$$|f(x)| < 1$$Esta única linha é a máquina da parte 3 inteira: \(f(x) = -x/3\) dá \(1/(3+x)\), \(f(x) = -x\) dá \(1/(1+x)\), \(f(x) = -x^{2}\) dá \(1/(1+x^{2})\), \(f(x) = 1-x\) dá \(1/x\).
O teorema da substituição
Se
$$\sum_{n=0}^{+\infty} a_n x^{n} \quad\text{é convergente para } x\in\left(-R,\,R\right)$$então
$$\sum_{n=0}^{+\infty} a_n \big(f(x)\big)^{n} \quad\text{converge}\quad\text{se}\quad \boxed{\;|f(x)| < R\;}$$Isto é: a variável nova entra no lugar da antiga, e a condição de convergência entra junto — quem tem de ficar dentro do raio agora é \(f(x)\), não \(x\).
Com \(f(x) = x^{2}\), a condição do teorema é \(|x^{2}| < R\). Ela ainda não é resposta: precisa virar um intervalo em \(x\).
$$|x^{2}| < R$$ $$|x|^{2} < R \iff |x| < \sqrt{R}$$O raio da série nova é \(\sqrt{R}\), não \(R\).
Por que isso só vale para série de potências
Derivar termo a termo parece inofensivo, e não é. O quadro trouxe uma série de funções que não é série de potências para mostrar o estrago.
Obs. \(|\operatorname{sen}(n!\,x)| \le 1\) para todo \(x\), então cada termo é limitado por \(1/n^{2}\). A da direita é p-série com \(p=2>1\), converge — e por comparação a da esquerda converge também, para todo \(x\).
Derivando parcela por parcela, a regra da cadeia joga o \(n!\) para fora:
$$\sum_{n=1}^{+\infty}\frac{n!\cos(n!\,x)}{n^{2}}$$Basta testar no ponto mais barato. Para \(x=0\), \(\cos(0)=1\):
$$\text{para } x = 0 \;\Longrightarrow\; \sum_{n=1}^{+\infty}\frac{n!}{n^{2}}$$O fatorial esmaga o \(n^{2}\): o termo geral vai a \(+\infty\), e a série diverge pelo teste da divergência.
A função \(1/(3+x)\)
Primeira aplicação da máquina. O objetivo é sempre o mesmo: deixar a expressão na cara de \(\dfrac{1}{1-y}\).
Obs. Dois ajustes: põe-se o 3 em evidência para o primeiro termo virar 1, e escreve-se \(+\,x/3\) como \(-\,(-x/3)\) para o sinal bater com o do denominador da geométrica. Agora \(y = -x/3\).
Obs. O \(1/3\) de fora entra em cada parcela e por isso o expoente do 3 fica \(n+1\); o sinal de \((-x/3)^n\) vira \((-1)^n\).
A função \(1/(1+x)\) e sua derivada
O caso mais simples da substituição, e o que serve de matéria-prima para quase tudo que vem depois.
A troca de \(x\) por \(-x\) só alterna os sinais. A condição \(|-x|<1\) é a mesma \(|x|<1\): aqui o intervalo não muda.
À esquerda, derivada comum; à direita, o tópico 02:
$$\left(\frac{1}{1+x}\right)' = \frac{-1}{(1+x)^{2}} = -1 + 2x + \dots + (-1)^{n}n\,x^{n-1} + \dots$$Obs. O termo constante 1 morreu, o \(-x\) virou \(-1\), o \(x^2\) virou \(2x\). Uma derivada de graça produziu a série de \(-1/(1+x)^{2}\), que ninguém montaria do zero.
A função \(\ln(1+x)\)
Aqui o caminho é o de integração, e é o exemplo que mostra como se acerta o \(C\).
E \(\ln(1) = 0\), porque toda parcela do lado direito tem \(x\) em evidência e zera. Logo \(C = 0\):
$$\ln(1+x) = \sum_{n=0}^{+\infty}(-1)^{n}\frac{x^{n+1}}{n+1}, \qquad \boxed{\,|x| < 1\,}$$As funções \(\ln(1-x)\) e \(\ln(1-x^{2})\)
Nenhuma integral nova: as duas saem da série do tópico 09 pela substituição do tópico 05.
Agora abre-se o \((-x)^{n+1}\):
$$\ln(1-x) = \sum_{n=0}^{+\infty}(-1)^{n}(-1)^{n+1}\frac{x^{n+1}}{n+1}$$Obs. \((-1)^{n}(-1)^{n+1} = (-1)^{2n+1} = -1\), para todo \(n\). Os sinais alternados se anulam e sobra um sinal fixo:
$$\ln(1-x) = -\sum_{n=0}^{+\infty}\frac{x^{n+1}}{n+1}, \qquad |x| < 1$$E a condição se resolve em \(x\) como no tópico 05:
$$|-x^{2}| < 1 \;\Longrightarrow\; |x| < 1$$Reconhecer a série de volta: \(x\ln(1+x)\)
Os exercícios também vêm ao contrário: dada a série, dizer que função ela é. O truque é pôr em evidência até bater com uma série conhecida.
Obs. \(x^{n+2} = x\cdot x^{n+1}\), e o \(x\) não depende de \(n\): sai do somatório. O que ficou dentro é exatamente a série do tópico 09.
$$= x\ln(1+x), \qquad |x| < 1$$As funções \(\operatorname{arctg}(x)\) e \(\operatorname{arctg}(x^{2})\)
Mesma receita do \(\ln\): reconhecer a primitiva, substituir na geométrica, integrar, achar o \(C\).
Obs. Só sobram expoentes ímpares, porque \(x^{2n}\) integrado dá \(x^{2n+1}/(2n+1)\).
Multiplicando os expoentes:
$$\operatorname{arctg}(x^{2}) = \sum_{n=0}^{+\infty}(-1)^{n}\frac{x^{4n+2}}{2n+1}$$Obs. \(\left(x^{2}\right)^{2n+1} = x^{2(2n+1)} = x^{4n+2}\).
Pelo lado da função, com regra da cadeia:
$$\frac{1}{1+\left(x^{2}\right)^{2}}\cdot(2x) = \frac{2x}{1+x^{4}}$$A mesma derivada sai da série, pelo tópico 02 — e é o teste mais rápido de que a série que você escreveu está certa.
A função \(1/x\), longe da origem
Fecho da aula, e o exemplo que obriga o centro a sair do zero: \(1/x\) não está definida em \(x=0\), então não existe série dela centrada ali. O truque é somar e subtrair o centro no denominador.
Obs. Escreve-se \(x\) como \(1-1+x\) e agrupa-se \(-1+x = -(1-x)\). Aí \(y = 1-x\).
A condição \(|y|<1\) vira um intervalo em \(x\):
$$|1-x| < 1$$ $$-1 < 1-x < 1$$ $$-2 < -x < 0$$ $$\boxed{\;0 < x < 2\;}$$Falta arrumar a série para ficar em potências de \((x-1)\), que é a forma canônica com centro 1:
$$\frac{1}{x} = 1 - (x-1) + (x-1)^{2} - (x-1)^{3} + \dots = \sum_{n=0}^{+\infty}(-1)^{n}(x-1)^{n}$$Obs. \((1-x)^{n} = (-1)^{n}(x-1)^{n}\) — é só trocar a ordem da subtração e pagar com um sinal.
A mesma conta, com o centro em aberto:
$$\frac{1}{x} = \frac{1}{x_0 - x_0 + x} = \frac{1}{x_0 - (x_0-x)}$$Põe-se \(x_0\) em evidência para o primeiro termo virar 1:
$$= \frac{1}{x_0\left(1-\dfrac{x_0-x}{x_0}\right)} = \frac{1}{x_0}\left(1 + \left(\frac{x_0-x}{x_0}\right) + \dots\right)$$ $$= \frac{1}{x_0}\sum_{n=0}^{+\infty}(-1)^{n}\frac{\left(x-x_0\right)^{n}}{x_0^{\,n}}$$ $$= \sum_{n=0}^{+\infty}(-1)^{n}\frac{\left(x-x_0\right)^{n}}{x_0^{\,n+1}}$$Obs. De novo \((x_0-x)^{n} = (-1)^{n}(x-x_0)^{n}\), e o \(1/x_0\) de fora junta-se ao \(x_0^{\,n}\) virando \(x_0^{\,n+1}\).
E a condição:
$$\left|\frac{x-x_0}{x_0}\right| < 1 \iff |x-x_0| < |x_0|$$Checklist da A5
Se você consegue responder tudo abaixo sem consultar, a aula está fechada.
| Pergunta | Onde está |
|---|---|
| Escrever \(f(x)=\sum a_n(x-x_0)^n\) e a soma parcial \(S_n(x)\) | De série a função |
| Derivar uma série de potências termo a termo, ajustando o índice inicial para \(n=1\) e \(n=2\) | Derivação termo a termo |
| Integrar termo a termo e lembrar que o \(C\) é único e fica fora do somatório | Integração termo a termo |
| Escrever \(1/(1-y)\) com \(y=f(x)\) e dizer a condição \(|f(x)|<1\) | Trocar \(x\) por outra coisa |
| Enunciar o teorema da substituição e resolver \(|x^{2}|<R\) em \(x\) | O teorema da substituição |
| Explicar com \(\sum \operatorname{sen}(n!x)/n^{2}\) por que derivar termo a termo não vale fora de série de potências | Por que isso só vale para série de potências |
| Pôr o 3 em evidência e expandir \(1/(3+x)\) até \((-1)^n x^n/3^{n+1}\), com \((-3,3)\) | A função \(1/(3+x)\) |
| Obter a série de \(-1/(1+x)^{2}\) derivando a de \(1/(1+x)\) | A função \(1/(1+x)\) |
| Deduzir a série de \(\ln(1+x)\) por integração e fixar \(C=0\) em \(x=0\) | A função \(\ln(1+x)\) |
| Simplificar \((-1)^{n}(-1)^{n+1}=-1\) e chegar a \(\ln(1-x)=-\sum x^{n+1}/(n+1)\) | As funções \(\ln(1-x)\) e \(\ln(1-x^{2})\) |
| Fatorar a potência de \(x\) de uma série dada e reconhecê-la como \(x\ln(1+x)\) | Reconhecer a série de volta |
| Montar a série de \(\operatorname{arctg}(x)\) e passar dela para \(\operatorname{arctg}(x^{2})\), com expoente \(4n+2\) | As funções \(\operatorname{arctg}\) |
| Somar e subtrair o centro para expandir \(1/x\) em torno de \(x_0=1\) e achar \(0<x<2\) | A função \(1/x\) |
| Repetir a expansão de \(1/x\) com centro \(x_0\) genérico e concluir \(|x-x_0|<|x_0|\) | A função \(1/x\) |
| Trocar \((a-b)^n\) por \((-1)^n(b-a)^n\) sem errar o sinal | A função \(1/x\) |