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MAT039 · Cálculo II · 2026/2

Séries de Taylor e Maclaurina fórmula do coeficiente, o resto, e as séries de ex, sen, cos e (1+x)p

Na A5 as funções viravam série porque davam para forçar dentro da geométrica. Isso só funciona com quem se parece com \(1/(1-y)\). A pergunta desta aula é maior: dada uma função qualquer, existe uma série que a represente? A resposta é a série de Taylor, e ela não depende de truque nenhum — depende só de derivar a função no centro. Daí saem, de graça, as séries de \(e^{x}\), \(\operatorname{sen}(x)\), \(\cos(x)\), \(\operatorname{tg}(x)\) e \((1+x)^{p}\).

Aula: A6 Tópicos: 17 Pré-requisito: A4 e A5 Atualizado: 30/08/2026
Parte 1A série de Taylor
A6 · 01

A pergunta invertida

O ponto de partida é o mesmo objeto da A4 e da A5 — uma série de potências centrada em \(x_0\), válida dentro do seu raio:

O objeto $$f(x) := \sum_{n=0}^{+\infty} a_n\left(x-x_0\right)^{n}, \qquad x \in \left(x_0-R,\; x_0+R\right)$$

ou, por extenso,

$$f(x) = a_0 + a_1(x-x_0) + \dots + a_n(x-x_0)^{n} + \dots$$

A pergunta do quadro, escrita com todas as letras:

A pergunta da aula

Dada uma função, será que existe uma série que representa esta função?

E as funções que o quadro pôs como alvo:

$$f(x): \quad e^{x}, \quad \operatorname{tg}(x), \quad \operatorname{sen}(x), \ \dots$$
Não é a A5 de novoNa A5 a função tinha de parecer com \(1/(1-y)\) para o truque funcionar. Nenhuma das três acima parece. É por isso que a aula precisa de um método que não dependa da cara da função — e só existe uma coisa que toda função derivável tem em qualquer ponto: as suas derivadas.
A6 · 02

Os coeficientes de Taylor

Se a função é a soma daquela série, os coeficientes ficam presos: cada \(a_n\) é obrigado a valer a \(n\)-ésima derivada de \(f\) no centro, dividida por \(n!\).

O coeficiente $$f^{(n)}\!\left(x_0\right) = n!\;a_n \qquad\Longleftrightarrow\qquad \boxed{\;a_n = \frac{f^{(n)}\!\left(x_0\right)}{n!}\;}$$

Os primeiros casos, que aparecem soltos em toda questão:

$$f(x_0) = a_0, \qquad f'(x_0) = a_1, \qquad f''(x_0) = 2a_2$$
Definição · série de Taylor $$f(x) = \sum_{n=0}^{+\infty} \frac{f^{(n)}\!\left(x_0\right)}{n!}\left(x-x_0\right)^{n}$$

Quando o centro é \(x_0 = 0\), ela ganha nome próprio — série de Maclaurin — e o coeficiente encurta:

$$a_n = \frac{f^{(n)}(0)}{n!}, \qquad f(x) = \sum_{n=0}^{+\infty} \frac{f^{(n)}(0)}{n!}\,x^{n}$$

Daí sai o roteiro que resolve toda a parte 3 desta aula, sem exceção:

O roteiro

1. Derivar \(f\) várias vezes até o padrão se repetir.

2. Avaliar cada derivada em \(x_0\).

3. Dividir por \(n!\) — esse é o coeficiente.

4. Escrever o somatório e dizer para quais \(x\) ele vale.

Derivada avaliada não é coeficienteO passo 3 é o que some na prova. \(f^{(3)}(0) = -1\) não quer dizer \(a_3 = -1\): quer dizer \(a_3 = -1/3!\). Quem pula a divisão por \(n!\) chega a uma série que nem sequer converge. E o \(n!\) é o do índice, não o da ordem em que você escreveu a conta.
A6 · 03

A série de \(e^{x}\)

Primeira aplicação do roteiro, com a função mais cômoda que existe para ele.

Exemplo · \(f(x)=e^{x}\), \(x_0=0\)

Derivar é trivial, porque a exponencial é a sua própria derivada:

$$\left(e^{x}\right)' = e^{x} \quad\Longrightarrow\quad f^{(n)}(x) = e^{x} \ \text{ para todo } n$$

Avaliando no centro \(x_0 = 0\):

$$f^{(n)}(0) = e^{0} = 1$$

Dividindo por \(n!\):

$$a_n = \frac{1}{n!}$$

E a série:

$$\boxed{\;e^{x} = \sum_{n=0}^{+\infty} \frac{x^{n}}{n!}\;}$$

Por extenso, na forma em que ela é usada nos exercícios:

$$e^{x} = 1 + x + \frac{x^{2}}{2} + \dots + \frac{x^{n}}{n!} + \dots$$
O \(x^2/2\) não é exceçãoO terceiro termo aparece como \(x^{2}/2\) só porque \(2! = 2\). O padrão é \(x^{n}/n!\) do começo ao fim — inclusive nos dois primeiros termos, já que \(0! = 1! = 1\).
A6 · 04

Polinômio de Taylor e resto

Escrever a série inteira é uma coisa; usá-la na prática é outra — na prática se soma um pedaço e se joga o resto fora. O quadro deu nome aos dois pedaços partindo a série em duas:

A partição $$f(x) = \underbrace{\sum_{k=0}^{n} a_k\left(x-x_0\right)^{k}}_{T_n(x)} \; + \; \underbrace{\sum_{k=n+1}^{+\infty} a_k\left(x-x_0\right)^{k}}_{R_n(x)}$$ $$f(x) = T_n(x) + R_n(x)$$

\(T_n\) é o polinômio de Taylor de grau \(n\): uma soma finita, que dá para calcular. \(R_n\) é o resto: o erro que se comete ao trocar \(f\) por \(T_n\).

Exemplo · os três primeiros \(T_n\) $$T_0 = a_0 = f(x_0)$$ $$T_1 = f(x_0) + f'(x_0)\left(x-x_0\right)$$ $$T_2 = f(x_0) + f'(x_0)\left(x-x_0\right) + \frac{f''(x_0)}{2}\left(x-x_0\right)^{2}$$

Obs. Cada linha é a anterior mais um termo — nada se recalcula. E os denominadores são \(0!,\,1!,\,2!\), o que explica o 2 aparecendo só no terceiro.

f T₁ x₀
T₁ é a reta tangente ao gráfico de f em x₀ — perto do centro ela cola na curva, e longe dele se descola. Esse descolamento é exatamente R₁.
Grau \(n\), resto \(n\), mas expoente \(n+1\)\(T_n\) vai até o expoente \(n\), e por isso \(R_n\) começa no expoente \(n+1\). O índice do resto é o grau do polinômio que ficou, não o do primeiro termo descartado — é a troca de índice mais fácil de errar do assunto.
A6 · 05

A cota do resto

Chamar \(R_n\) de erro só serve se der para dizer de quanto ele é. O teorema faz isso, cobrando uma única coisa: que a derivada de ordem \(n+1\) não escape num intervalo em torno do centro.

Teorema · estimativa do resto

Se

$$\left|f^{(n+1)}(x)\right| \le M, \qquad \text{para } x \in \left(x_0-d,\; x_0+d\right), \quad (d>0)$$

então

$$\boxed{\;\left|R_n(x)\right| \le \frac{M}{(n+1)!}\left|x-x_0\right|^{n+1}\;}$$

Achar o \(M\) é a parte da questão que exige trabalho — e no caso da exponencial ele sai de um argumento de uma linha.

Exemplo · o \(M\) de \(e^{x}\)

Com \(x_0 = 0\), o intervalo é \(x \in (-d,\,d)\). Todas as derivadas de \(e^{x}\) são \(e^{x}\), e a exponencial é crescente, então dentro desse intervalo

$$e^{x} \le e^{d}$$

Serve \(M = e^{d}\), e a cota fica

$$\left|R_n(x)\right| \le \frac{e^{d}}{(n+1)!}\,|x|^{n+1}$$
O \(M\) depende de \(d\), não de \(n\)É isso que faz a cota servir: \(e^{d}\) é um número fixo, escolhido o intervalo, e quem cresce com \(n\) é o \((n+1)!\) no denominador. Se o seu \(M\) saiu dependendo de \(n\), você limitou a derivada errada.
Parte 2Trabalhando com a série de ex
A6 · 06

Por que a série de \(e^{x}\) vale em todo \(\mathbb{R}\)

Escrever a série é metade do serviço; a outra metade é dizer para quais \(x\) a igualdade vale. Aqui a resposta é a melhor possível, e sai do teste da razão da A3 aplicado aos termos da própria série.

Exemplo · o teste da razão em \(\sum x^{n}/n!\) $$\frac{\left|\dfrac{x^{n+1}}{(n+1)!}\right|}{\left|\dfrac{x^{n}}{n!}\right|} = \frac{|x|}{n+1} \;\xrightarrow[\;n\to+\infty\;]{}\; 0$$

Obs. O \(x^{n}\) cancela com \(x^{n+1}\) deixando \(|x|\), e \(n!/(n+1)! = 1/(n+1)\).

O limite é 0 seja qual for o \(x\) fixado — o \(|x|\) é uma constante em frente a um \(1/(n+1)\) que morre. Logo o raio é infinito:

$$\boxed{\;e^{x} = \sum_{n=0}^{+\infty}\frac{x^{n}}{n!}, \quad \text{para cada } x \in \mathbb{R}\;}$$
É a única das quatro sem restriçãoGuarde a diferença: \(e^{x}\), \(\operatorname{sen}(x)\) e \(\cos(x)\) valem em todo \(\mathbb{R}\); a geométrica da A5 e a binomial da parte 5 valem só em \(|x|<1\). Escrever “para todo \(x\)” embaixo de uma série binomial é erro de graça.
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A integral que não tem primitiva

Aqui a série deixa de ser curiosidade e vira ferramenta. \(e^{x^{2}}\) não tem primitiva elementar — não existe função em termos de \(\operatorname{sen}\), \(\ln\), potências e afins cuja derivada seja ela. Em série, integra-se sem dificuldade.

Exemplo · \(\displaystyle\int_0^1 e^{x^{2}}\,dx\)

Primeiro troca-se \(x\) por \(x^{2}\) na série da exponencial:

$$\int_0^1 e^{x^{2}}\,dx = \int_0^1\left(1 + x^{2} + \frac{x^{4}}{2} + \dots + \frac{x^{2n}}{n!} + \dots\right)dx$$

Integra-se termo a termo, pela licença da A5:

$$= \left(x + \frac{x^{3}}{3} + \frac{x^{5}}{2\cdot 5} + \dots + \frac{x^{2n+1}}{n!\,(2n+1)} + \dots\right)\Bigg|_0^{1}$$

Obs. Cada \(x^{2n}/n!\) vira \(x^{2n+1}/\big(n!\,(2n+1)\big)\): sobe o expoente e divide pelo novo expoente, com o \(n!\) que já estava lá vindo junto.

Em \(x=1\) toda potência vale 1, e em \(x=0\) tudo zera:

$$= 1 + \frac{1}{3} + \frac{1}{2\cdot 5} + \dots + \frac{1}{n!\,(2n+1)} + \dots$$
Exemplo · \(e^{-x^{2}}\)

Mesma substituição, agora com sinal. Trocando \(x\) por \(-x^{2}\):

$$e^{-x^{2}} = \sum_{n=0}^{+\infty}\frac{\left(-x^{2}\right)^{n}}{n!} = \sum_{n=0}^{+\infty}\frac{(-1)^{n}x^{2n}}{n!}$$

Obs. \((-x^{2})^{n} = (-1)^{n}x^{2n}\) — o sinal sai inteiro para fora, e o expoente 2 multiplica o \(n\).

O resultado é uma série, e é respostaNão fique procurando um número fechado: \(1 + 1/3 + 1/(2\cdot 5) + \dots\) é o valor da integral. Somando quantos termos você quiser, tem-se a aproximação numérica com a precisão que o resto da parte 1 permite estimar.
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Substituir dentro de \(e^{x}\)

Como a série de \(e^{x}\) vale em todo \(\mathbb{R}\), não há condição nenhuma a verificar ao pôr outra coisa no lugar de \(x\) — nem número, nem função.

Exemplo · \(x = 1\), o número \(e\) $$e = \boxed{\;1 + 1 + \frac{1}{2}\;} + \frac{1}{3!} + \dots + \frac{1}{n!} + \dots$$

Os três primeiros termos já dão 2,5. O quarto acrescenta \(1/6\) e leva a 2,666…; o padrão continua fechando em 2,718…

Exemplo · \(e^{\operatorname{sen}(x)}\)

No lugar de \(x\) entra a função inteira:

$$e^{\operatorname{sen}(x)} = 1 + \operatorname{sen}(x) + \frac{\operatorname{sen}^{2}(x)}{2} + \dots + \frac{\operatorname{sen}^{n}(x)}{n!} + \dots$$
Aqui não se refaz desigualdade nenhumaNa A5, toda substituição na geométrica obrigava a resolver \(|f(x)|<1\) em \(x\). Com a exponencial isso não acontece, porque o raio é infinito e \(|f(x)|<+\infty\) é sempre verdade. Compare com o exemplo da A5 em que \(1/(1-\operatorname{sen} x)\) morria em \(x=\pi/2\): \(e^{\operatorname{sen}(x)}\) não morre em lugar nenhum.
Parte 3Seno e cosseno
A6 · 09

A série do seno

Segunda aplicação do roteiro, e a que mais aparece em prova. Centro em \(x_0 = 0\), coeficiente \(a_n = f^{(n)}(0)/n!\).

Exemplo · \(f(x)=\operatorname{sen}(x)\), \(x_0=0\)

Derivando e avaliando em 0, uma ordem por vez:

$$\operatorname{sen}(0) = 0$$ $$\left(\operatorname{sen}(x)\right)' = \cos(x) \;\Longrightarrow\; \left(\operatorname{sen}(0)\right)' = 1$$ $$\left(\operatorname{sen}(x)\right)'' = -\operatorname{sen}(x) \;\Longrightarrow\; \left(\operatorname{sen}(0)\right)'' = 0$$ $$\left(\operatorname{sen}(x)\right)''' = -\cos(x) \;\Longrightarrow\; \left(\operatorname{sen}(0)\right)''' = -1$$

Na quarta derivada volta-se ao seno, e o padrão se repete de quatro em quatro. A lista dos valores \(f^{(n)}(0)\):

$$0,\; 1,\; 0,\; -1,\qquad 0,\; 1,\; 0,\; -1,\qquad \dots$$

Metade dos termos morre: sobram só os de índice ímpar, alternando sinal. Dividindo cada um pelo seu \(n!\):

$$\operatorname{sen}(x) = x - \frac{x^{3}}{3!} + \frac{x^{5}}{5!} - \dots$$

Em somatório, com o índice reescrito para varrer só os ímpares:

$$\boxed{\;\operatorname{sen}(x) = \sum_{n=0}^{+\infty}\frac{(-1)^{n}\,x^{2n+1}}{(2n+1)!}\;}$$
Os valores 0, 1, 0, −1 são derivadas, não coeficientesEsta é a armadilha do tópico 02 em ação. A lista \(0,1,0,-1\) traz os \(f^{(n)}(0)\); o coeficiente do \(x^{3}\) não é \(-1\), é \(-1/3!\). Confira sempre pelo termo por extenso: se aparecer \(x^{3}\) sem \(3!\) embaixo, a divisão foi esquecida.
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O limite \(\operatorname{sen}(x)/x\) pela série

O limite fundamental do Cálculo I, resolvido sem L'Hôpital e sem confronto — só dividindo a série por \(x\).

Exemplo · \(\displaystyle\lim_{x\to 0}\frac{\operatorname{sen}(x)}{x}\) $$\frac{\operatorname{sen}(x)}{x} = \frac{1}{x}\left(x - \frac{x^{3}}{3!} + \dots\right) = 1 - \frac{x^{2}}{3!} + \dots$$

Obs. Todo termo do seno tem pelo menos um \(x\), então a divisão não deixa nenhuma potência negativa — a indeterminação \(0/0\) simplesmente some.

Fazendo \(x \to 0\), todas as potências restantes zeram e sobra o termo constante:

$$\lim_{x\to 0}\frac{\operatorname{sen}(x)}{x} = 1$$
Serve para qualquer indeterminação desse tipoA técnica é geral: trocar numerador e denominador pelas séries, cancelar a potência comum e ler o limite no primeiro termo que sobra. É quase sempre mais rápido que L'Hôpital repetido — e não pede derivar nada na hora.
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A série do cosseno

Não é preciso repetir o roteiro: o cosseno é a derivada do seno, e a série do seno se deriva termo a termo — a licença é a da A5.

Exemplo · derivando a série do seno $$\left(\operatorname{sen} x\right)' = \cos(x)$$

Derivando termo a termo o lado direito:

$$\cos(x) = 1 - \frac{3x^{2}}{3!} + \dots + (-1)^{n}\frac{(2n+1)\,x^{2n}}{(2n+1)!} + \dots$$

Obs. A derivada de \(x^{2n+1}\) é \((2n+1)x^{2n}\); o fator \((2n+1)\) desce e cancela com o topo do fatorial, porque \((2n+1)! = (2n+1)\cdot(2n)!\).

$$\boxed{\;\cos(x) = \sum_{n=0}^{+\infty}\frac{(-1)^{n}\,x^{2n}}{(2n)!}\;}$$
Par e ímpar, e nada mais para decorarSeno tem só expoentes ímpares e fatorial ímpar; cosseno, só pares e fatorial par. Se você trocar os dois, o valor em \(x=0\) denuncia na hora: a série do cosseno começa em 1, a do seno começa em \(x\).
Parte 4Produto e quociente de séries
A6 · 12

Produto de duas séries

Para chegar em \(\operatorname{tg}(x)\) falta saber multiplicar e dividir séries. A multiplicação é a distributiva de sempre, organizada por potência de \(x\).

A conta em coluna

Multiplicando \(a_0 + a_1x + a_2x^{2} + \dots\) por \(b_0 + b_1x + b_2x^{2} + \dots\), e empilhando os produtos parciais:

$$a_0b_0 + a_1b_0\,x + a_2b_0\,x^{2} + \dots$$ $$\phantom{a_0b_0 +\ } a_0b_1\,x + a_1b_1\,x^{2} + \dots$$ $$\phantom{a_0b_0 + a_0b_1\,x +\ } a_0b_2\,x^{2} + \dots$$

Somando coluna por coluna:

$$a_0b_0 + \left(a_1b_0 + a_0b_1\right)x + \left(a_2b_0 + a_1b_1 + a_0b_2\right)x^{2} + \dots$$ $$= c_0 + c_1x + c_2x^{2} + \dots$$
Definição · o coeficiente do produto $$c_0 = a_0b_0, \qquad c_1 = a_1b_0 + a_0b_1$$ $$c_n = a_nb_0 + a_{n-1}b_1 + \dots + a_0b_n = \sum_{k=0}^{n} a_{n-k}\,b_k$$

E o produto inteiro:

$$f(x)\cdot g(x) = \left(\sum_{n=0}^{+\infty}a_nx^{n}\right)\left(\sum_{n=0}^{+\infty}b_nx^{n}\right)$$ $$= \sum_{n=0}^{+\infty}\left(\sum_{k=0}^{n}a_{n-k}\,b_k\right)x^{n}$$
Não é multiplicar termo a termoO coeficiente de \(x^{n}\) no produto não é \(a_nb_n\): é a soma de \(n+1\) parcelas, todas as maneiras de os índices somarem \(n\). A conferência rápida é a soma dos índices — em \(a_{n-k}b_k\) ela dá \(n\) em toda parcela.
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Exemplo: \(\operatorname{sen}(x)\cdot\cos(x)\)

Exemplo · o produto, coeficiente a coeficiente

Escrevendo as duas séries com os zeros no lugar, para não errar índice:

$$\operatorname{sen}(x)\cos(x) =$$ $$\left(0 + x + 0 - \frac{x^{3}}{3!} + \dots\right)\left(1 + 0 - \frac{x^{2}}{2} + 0 + \frac{x^{4}}{4!} + \dots\right)$$

Ou seja \(a_0=0,\ a_1=1,\ a_2=0,\ a_3=-1/3!\) e \(b_0=1,\ b_1=0,\ b_2=-1/2,\ b_3=0\). Aplicando \(c_n = \sum a_{n-k}b_k\):

$$c_0 = a_0b_0 = 0$$ $$c_1 = a_1b_0 + a_0b_1 = 1\cdot 1 + 0 = 1$$ $$c_2 = a_2b_0 + a_1b_1 + a_0b_2 = 0 + 0 + 0 = 0$$

Logo

$$\operatorname{sen}(x)\cos(x) = x + \dots$$
Escrever os zeros não é preciosismoO seno não tem termo em \(x^{2}\) e o cosseno não tem em \(x\) — mas \(a_2\) e \(b_1\) existem e valem 0. Quem escreve só os termos não nulos acaba somando \(a_1b_1\) com o \(b\) errado e desloca a série inteira.
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Quociente: a série de \(\operatorname{tg}(x)\)

Dividir séries não tem fórmula fechada. O que se faz é virar a divisão do avesso: chamar o quociente de \(\sum c_nx^{n}\), multiplicar de volta e igualar coeficiente a coeficiente.

O método $$\operatorname{tg}(x) = \frac{\operatorname{sen}(x)}{\cos(x)} = \frac{\sum a_nx^{n}}{\sum b_nx^{n}} = \sum c_nx^{n}$$

Passando o denominador para o outro lado, vira um produto — e o produto já se sabe fazer:

$$\sum a_nx^{n} = \left(\sum b_nx^{n}\right)\left(\sum c_nx^{n}\right)$$ $$\Longrightarrow\qquad a_n = \sum_{k=0}^{n} b_{n-k}\,c_k$$

Aqui \(a_n\) e \(b_n\) são conhecidos (seno e cosseno) e o \(c_n\) é a incógnita. Escrevendo as equações em ordem, cada uma tem um \(c\) novo:

$$a_0 = b_0c_0$$ $$a_1 = b_1c_0 + b_0c_1$$ $$a_2 = b_2c_0 + b_1c_1 + b_0c_2$$
Exemplo · resolvendo, um \(c_n\) por linha

Com \(a = (0,\,1,\,0,\,-1/3!)\) e \(b = (1,\,0,\,-1/2,\,0)\):

$$a_0 = 0: \qquad 0 = 1\cdot c_0 \;\Longrightarrow\; c_0 = 0$$ $$a_1 = 1: \qquad 1 = 0 + 1\cdot c_1 \;\Longrightarrow\; c_1 = 1$$ $$a_2 = 0: \qquad 0 = \left(-\tfrac{1}{2}\right)\cdot 0 + 0\cdot c_1 + 1\cdot c_2 \;\Longrightarrow\; c_2 = 0$$

E o de ordem 3, que é o que dá trabalho:

$$-\frac{1}{3!} = b_3c_0 + b_2c_1 + b_1c_2 + b_0c_3$$ $$-\frac{1}{6} = 0 - \frac{1}{2}\cdot 1 + 0 + 1\cdot c_3$$ $$c_3 = \frac{1}{2} - \frac{1}{6} = \frac{3-1}{6} = \frac{1}{3}$$

Juntando:

$$\boxed{\;\operatorname{tg}(x) = 0 + x + \frac{x^{3}}{3} + \dots\;}$$
Por que a tangente não sai pelo roteiro do tópico 02Ela sai — mas derivando: \((\operatorname{tg} x)' = \sec^{2}(x)\), e a derivada seguinte já é impraticável de organizar. É exatamente por isso que a aula construiu o produto e o quociente: para chegar em \(\operatorname{tg}(x)\) sem derivar quatro vezes. Repare também que \(c_3 = 1/3\), e não \(1/3!\) — o padrão bonito do seno e do cosseno não se repete aqui.
Parte 5Série binomial
A6 · 15

Do binômio de Newton ao expoente real

Última família de séries da aula, e ela começa em algo do ensino médio.

O que já se sabe $$(a+b)^{2} = a^{2} + 2ab + b^{2}$$

e, para expoente natural qualquer,

$$(a+b)^{n} = \sum_{k=0}^{n}\binom{n}{k}a^{n-k}b^{k}$$

Soma finita, com \(n+1\) parcelas.

A pergunta nova

E se o expoente não for natural? O que é \((a+b)^{p}\) com

$$f(x) = (1+x)^{p}, \qquad p \in \mathbb{R}$$

A soma finita deixa de fazer sentido — não há como parar em \(k=p\) se \(p\) é \(1/2\) ou \(-1\). A saída é aceitar que ela vire infinita, e é aí que a série de Taylor entra.

Antes disso, o passo algébrico que transforma qualquer binômio no formato \((1+x)^{p}\): pôr o primeiro termo em evidência.

Exemplo · \((4-x)^{1/2}\) $$(4-x)^{1/2} = \left(4\left(1 + \left(-\frac{x}{4}\right)\right)\right)^{1/2}$$ $$= 2\left(1 + \left(-\frac{x}{4}\right)\right)^{1/2}$$

Obs. O 4 sai da potência como \(4^{1/2} = 2\), e o que resta dentro já está na forma \((1+y)^{p}\) com \(y = -x/4\) e \(p = 1/2\).

Sempre o 1 na frenteA série binomial só existe para \((1+y)^{p}\). Qualquer outro binômio precisa antes ser espremido nesse molde, e a constante que sai multiplica a série inteira por fora — no exemplo, o 2. Esquecer esse fator é o erro mais comum do tópico.
A6 · 16

A série binomial

\((1+x)^{p}\) é o roteiro do tópico 02 aplicado mais uma vez, com centro em \(x_0=0\).

Exemplo · as derivadas de \((1+x)^{p}\) em 0 $$f(x) = (1+x)^{p} \;\Longrightarrow\; f(0) = 1$$ $$f'(x) = p(1+x)^{p-1} \;\Longrightarrow\; f'(0) = p$$ $$f''(x) = p(p-1)(1+x)^{p-2} \;\Longrightarrow\; f''(0) = p(p-1)$$

Obs. Cada derivada baixa o expoente em 1 e deixa cair um fator na frente. Em \(x=0\) a potência de \((1+x)\) vale 1 sempre, e sobra só o produto dos fatores.

O padrão de \(f^{(n)}(0)\) é o produto de \(n\) fatores descendo de \(p\). Dividindo por \(n!\):

$$\boxed{\;(1+x)^{p} = 1 + px + \sum_{n=2}^{+\infty}\left(\frac{p(p-1)\cdots\big(p-(n-1)\big)}{n!}\right)x^{n}\;}$$
Definição · coeficiente binomial generalizado

Aquele bloco recebe o mesmo símbolo do binômio de Newton:

$$\frac{p(p-1)\cdots\big(p-(n-1)\big)}{n!} =: \binom{p}{n} = \frac{p!}{(p-n)!\,n!}$$

A escrita da esquerda é a que funciona sempre — a da direita só faz sentido com \(p\) natural, porque fatorial de \(-1/2\) não existe.

Exemplo · \(\displaystyle\binom{-1}{2}\)

São \(n=2\) fatores descendo a partir de \(p=-1\), sobre \(2!\):

$$\binom{-1}{2} = \frac{(-1)(-1-1)}{2} = \frac{2}{2} = 1$$
Conte os fatores, não o expoenteO numerador tem \(n\) fatores, e o último é \(p-(n-1)\), não \(p-n\). Com \(n=2\) são dois: \(p\) e \(p-1\). Parar em \(p-n\) acrescenta um fator a mais e erra todo coeficiente daí em diante.
A6 · 17

As funções \(1/\sqrt{1+x}\) e \(1/(1-x)\)

Duas leituras da mesma fórmula, com expoentes negativos.

Exemplo · \(p = -1/2\)

Raiz no denominador é potência negativa fracionária:

$$\frac{1}{\sqrt{1+x}} = (1+x)^{-1/2}$$

Aplicando a série binomial com \(p=-1/2\), o termo em \(x\) sai direto de \(px\):

$$= 1 - \frac{x}{2} + \sum_{n=2}^{+\infty}\binom{-1/2}{n}x^{n}$$
Exemplo · \(p = -1\), a geométrica de volta

Primeiro põe-se no molde \((1+y)^{p}\), com \(y = -x\):

$$\frac{1}{1-x} = (1-x)^{-1} = \big(1+(-x)\big)^{-1}$$

Agora a série binomial, termo a termo:

$$= 1 + (-1)(-x) + \binom{-1}{2}x^{2} + \dots$$

Obs. No segundo termo, \(p=-1\) multiplica \(y=-x\) e os dois sinais se cancelam, dando \(+x\). No terceiro, \(\binom{-1}{2}=1\) e \((-x)^{2}=x^{2}\).

$$= 1 + x + x^{2} + \dots$$
A geométrica era um caso particular o tempo todoO resultado do segundo exemplo é exatamente a série da A5. Isso serve de conferência: se você aplicar a binomial com \(p=-1\) e não chegar em \(1+x+x^{2}+\dots\), o erro está na sua conta de \(\binom{p}{n}\), não na fórmula. E lembra a restrição herdada: \(|x|<1\).
FechoChecklist
Revisão

Checklist da A6

Se você consegue responder tudo abaixo sem consultar, a aula está fechada.

PerguntaOnde está
Escrever \(a_n = f^{(n)}(x_0)/n!\) e montar a série de Taylor de uma função dadaOs coeficientes de Taylor
Dizer a diferença entre série de Taylor e série de MaclaurinOs coeficientes de Taylor
Obter \(e^{x}=\sum x^{n}/n!\) derivando e avaliando em \(x_0=0\)A série de \(e^{x}\)
Separar \(f = T_n + R_n\) e escrever \(T_0\), \(T_1\) e \(T_2\)Polinômio de Taylor e resto
Aplicar \(|R_n(x)|\le \dfrac{M}{(n+1)!}|x-x_0|^{n+1}\) e achar o \(M=e^{d}\) da exponencialA cota do resto
Rodar o teste da razão em \(\sum x^{n}/n!\) e concluir que a igualdade vale em todo \(\mathbb{R}\)Por que a série de \(e^{x}\) vale em todo \(\mathbb{R}\)
Calcular \(\int_0^1 e^{x^{2}}dx\) integrando a série termo a termoA integral que não tem primitiva
Escrever \(e^{-x^{2}}=\sum(-1)^{n}x^{2n}/n!\) por substituiçãoA integral que não tem primitiva
Obter o valor de \(e\) pondo \(x=1\), e expandir \(e^{\operatorname{sen}(x)}\)Substituir dentro de \(e^{x}\)
Listar \(f^{(n)}(0) = 0,1,0,-1,\dots\) do seno e chegar a \(\sum(-1)^{n}x^{2n+1}/(2n+1)!\)A série do seno
Resolver \(\lim_{x\to0}\operatorname{sen}(x)/x\) dividindo a série por \(x\)O limite \(\operatorname{sen}(x)/x\)
Derivar a série do seno termo a termo e cancelar \((2n+1)\) com \((2n+1)!\)A série do cosseno
Escrever \(c_n = \sum_{k=0}^{n} a_{n-k}b_k\) e justificar por que não é \(a_nb_n\)Produto de duas séries
Calcular \(c_0\), \(c_1\) e \(c_2\) de \(\operatorname{sen}(x)\cos(x)\) com os zeros escritosExemplo: \(\operatorname{sen}(x)\cos(x)\)
Virar a divisão em produto, montar \(a_n=\sum b_{n-k}c_k\) e obter \(c_3=1/3\)Quociente: a série de \(\operatorname{tg}(x)\)
Pôr o 4 em evidência para levar \((4-x)^{1/2}\) à forma \(2(1+y)^{1/2}\)Do binômio de Newton ao expoente real
Escrever \(\binom{p}{n}\) com \(n\) fatores descendo de \(p\) e calcular \(\binom{-1}{2}=1\)A série binomial
Expandir \(1/\sqrt{1+x}\) e recuperar a geométrica com \(p=-1\)As funções \(1/\sqrt{1+x}\) e \(1/(1-x)\)